Nessa terra feliz e coberta de opulência. Onde de ter nascido eu me orgulho e me ufano, Ergue-se para vós um templo soberano, Das lutas p'lo saber, das lutas pela ciência.
Trabalhai por erguê-lo ao celeste oceano, Pois, dai-lhe a forte voz de vossa inteligência, Não o deixeis girar no eixo da decadência, E jovens, não fujais do combater insano.
Bravo, grandes que sois em tão precoce idade, Eu gosto de vos ver lutando ao retumbar Da límpida canção azul da mocidade...
E, nesta frente altanada de heróis, A Deus peço que faça o louro fulgurar Brilhando como brilha um turbilhão de sóis.
1901
Rememorando Francisco de Castro Lagreca
Generalidades
São indecifráveis os propósitos do Todo Poderoso.
Minha mãe, católica fervorosa, mas não beata, de quem todos nós, filhos, aprendemos as primeiras lições, nunca deixou de incutir a submissão à Ele, a respeitá-Lo, honrá-Lo, e sempre ter receio de sua “varinha de algodão”. “Deus bate forte com vara de algodão”, dizia ela, quando queria referir-se ao castigo implacável que mais tempo, menos tempo viria Dele em função de nossos atos condenáveis.
Mas ao mesmo tempo não deixava ela de referir-se a Ele como o Justo dentro das ações meritórias (públicas os reservadas), que poderiam tardar, mas nunca deixariam de falhar no seu galardão.
Frente a esta formação Cristã transmitida por minha genitora, posso dizer que muitas vezes não entendi Seus desígnios. Se a fidúcia alguma vez foi abalada devido aos tremores que faziam sentir faltar a terra sob meus pés, sempre houve uma alternativa, quase que milagrosa, que se impunha como solução das algaravias e enovelamentos que tentavam englobar e confundir nosso corpo e alma.
Em função destes conceitos, poderíamos dizer até pragmáticos, foi estabelecida minha existência.
Não só por uma vez O senti levantar sua mão em minha defesa, desde incidentes graves na fazenda durante minha infância, bem como outras inúmeras vezes em que o anjo negro tentou me agarrar levando ao encontro a Caronte, barqueiro de Hades, para atravessar o rio Aqueronte.
Mas havia mais missões a serem executadas antes desta grande e derradeira jornada. E agora, pressentindo que elas já tenham sido cumpridas em grande parte, conquanto ainda reste algum trabalho a ser realizado até que a moeda seja colocada sob a língua -o justo pagamento ao barqueiro-, sinto a necessidade de divulgar série de fatos pertencentes aos tempos passados.
Mesmo agora, não posso deixar de ainda sentir a presença da saga, que sempre se faz presente, nos bons e maus momentos, a me acompanhar como imutável sombra. Constitui ela o anteparo mágico que se coloca entre eu e os maus acontecimentos, protegendo-me de ser prejudicado quando tomamos uma atitude ou executamos alguma ação. Os caminhos futuros são insondáveis, as sinuosidades que os envolvem são tão prolixas que se torna impossível prever com clareza o que ocorrerá no futuro, mas algumas vezes podemos sentir sua imagem lambuzada sombreando a porta do porvir. E assim, cabisbaixos ou não, avançarmos pouco a pouco mais no que nos reserva a roda da vida.
Algumas vezes fui surpreendido pelas nuances do acaso. E estas passagens que me são resporadicamente reservadas não constituem mais que experiências existenciais. Já me acostumei a aceitar com certa resignação estes fatos, com plena intuição que eles não passam das eternas brincadeiras que o destino me reservava.
Fomos admitidos na Academia Piracicabana de Letras em 2010. Fomos honrados por esta digna Instituição a ocupar a cadeira número 25, em que o patrono é Francisco Lagreca.
Qual não foi minha surpresa quando, procurando fatos sobre este ilustre personagem, muito pouco encontrei.
Insatisfeito com tal posicionamento, parti em busca de quem pudesse fornecer informações sobre ele. E fui encontrar estes dados em São Paulo com uma descendente familiar. Em viagem há alguns anos até Santa Domenica Talao, teve a informante a satisfação de confirmar os conhecimentos transmitidos oralmente a ela.
História Familiar
Nossa história começa na Itália, em pequena cidade da província de Cosenza, da Calábria, denominada de Santa Domênica Talao. Possui atualmente 35 Km2 e 1300 habitantes.
Neste local nasceu Pietro Paolo Francesco Lagreca, filho de Benigno Lagreca e Clorinda Campagna em 5 de outubro de 1857 e falecido em 01 de junho de 1944 em São Paulo.
Pietro Paolo La Greca era filho de Benigno La Greca, nascido em 1810 e casado em 18 de fevereiro de 1849 com Clorinda Campagna, e (Benigno) já era advogado (dottore in legge).
Os Lagreca já se constituíam família diferenciada dentro desta província, visto que Don Giuseppe La Greca, último arcipreste de Santa Domenica Talao foi poeta e filósofo literário e ainda diversas de suas obras ainda são conservadas. Pietro Paolo F. Lagreca imigrou para Pernambuco com mais dois irmãos. Um permaneceu em Pernambuco, outro em Rio de Janeiro e o último em São Paulo.
Os motivos desta mudança são desconhecidos.. Uma das hipóteses especuladas seria que a Calábria teria sofrido grandes intempéries assim como toda a Itália (que era constituído por reinados). O sistema político italiano era praticamente feudal. A economia e o direito eram discutíveis. A fome e doenças imperavam. Em 1840 eclode surto de cólera. Em 1859 tratos entre Cavour e Napoleão III originaram lutas internas. Em 1860 surge Garibaldi com sua unificação dos diversos reinos.
Provavelmente os irmãos preferiram enfrentar o desconhecido do que a própria situação que reinava na Itália, como veio ocorrer de forma exacerbada alguns anos depois.
Pietro Paolo Lagreca veio a casar-se em 16 de outubro de 1880 com D. Maria Leopoldina de Castro Lagreca (filha de Francisco Rodrigues de Barros e Maximiana Rosa de Castro) em Piracicaba. Destas núpcias nasceram os seguinte filhos: Leopoldo, Francisco, José, Rosa, Leonor, Benigno, Gelsomina, Galilei, Zuleica, Silvério (Silvio 14/06/1895-Piracicaba 30/04/1966-São Paulo. Foi o primeiro técnico de seleção de futebol)
Os Lagreca possuem extensa história ligada às artes. Provavelmente, devido ao berço que possuíam há mais de um século, com domínio sobre filosofia, poesia, seja, pessoas letradas e inclusive como figura proeminente na cidade, estes conhecimentos os faziam ressaltar dentro da comunidade de campesinos, que era a grande maioria da população dos reinados.
Corroborando estes fatos,temos pequeno livro de anotações, de Benigno Lagreca, datado de 1839;
Outro aspecto importante é o hábito que tinha Pedro Paulo Lagreca, pai de F. Lagreca em anotar o nome e a data do nascimento de todos os filhos em documentação própria.
Nascimento dir miei Figlinolo
Naque il mio primo figlio Leopoldo in giorno 1 di gennairo 1882
Naque il mio secondo figlio Francesco il giorno 17 di Febbraio del 1883
Naque il mio terzo figlio Guseppo, il giorno 8 di Agosto 1884
Mi sono maritato il giorno 18 di outubro 1880
Como última conseqüência desta herança cultural, temos que o próprio Francesco Lagreca era formado advogado em 1906.
Família Lagreca
Ao centro sentado Pedro Paulo Lagreca e sua esposa e segunda filha, Maria Leopoldina. Homens, da esq. p/ dir. Tio Petito (Silverino), tio Mezoco (Galileo), tio Zoca (José), vovô Benigno, tio Chico (Francesco). Faltou tio Nenê (Leopoldo)
Tempo e Obra
Há muito que me surpreendia sobre referências feitas por minha mãe (Antonieta Buzato Alleoni 1906-2001) de uma pessoa conhecida como o “Poeta de Piracicaba” ou segundo ela, o “Príncipe dos Poetas”.
Seguramente meu primeiro conhecimento sobre esta pessoa ocorreu frente ao monumento do Soldado Constitucionalista, ainda nos meados da década de 1950, onde uma inscrição sempre me chamava a atenção desde tenra idade, e que era sempre referida por minha genitora como da autoria dele:
“Este é o valor da terra estremecida, É o poema à glória piracicabana! Pela Pátria a lutar, vida por vida, Tombaram com bravura soberana! Dor e martírio de uma raça forte, Que a luz e o ideal de um sentimento novo! Sobre estas pedras não existe a morte, Porque não morre quem defende um povo!”
Dentro de nossa residência, algo que não faltava eram livros e mais livros, revistas das mais diversas, que eu lia avidamente com o maior prazer. Entre os livros de versos, também encontrava-se o de Francisco Lagreca, onde a colocação de palavras se fazia de forma altamente concatenada, marcante, e descritiva, para não falar, até com um sabor de magia:
"Bravio, intrépido, indomável, Como se fossem leões na jaula impenetrável, O rio, com as jubas crespas, vem rolando, Vem avançando, Numa fatal carreira, Até cair na pedreira. Ruge, reboa, atroa, fala, canta, E a espumarada ferve, referve, sobre o leito, Que é como o peito De um imenso gigante."
E pasmem: as linhas acima foram escritas quando ele tinha apenas seus treze anos.
Outro encontro extremamente impetuoso que firmou minha convicção sobre este grande homem deu-se no ano de 2006, quando escrevendo o livro do Centenário do Lar dos Velhinhos de Piracicaba, localizamos o texto abaixo reproduzido:
“Há o amparo que nasce da hipocrisia e há o que nasce da sinceridade. O primeiro é fruto podre, caído de almas degeneradas; o segundo é a flor mais pura e mais formosa que todas as flores, e que só viceja no fundo dos corações verdadeiramente humanos. Neste Asilo se encontra o amparo que nasce da sinceridade. É um templo de infinito zelo e de infinita consolação, diante de cujos umbrais o meu pensamente se ajoelha reverente, e faz votos para que se prolonguem pela vida destes pobres asilados, a bondade, o carinho, as raras e imensas virtudes do seu fundador.”
Estas linhas, juntamente com sua produção de poemas, simplesmente vem endossar o homem com visão aquilina e sagaz que se fazia presente no jovem em plena juventude na Noiva da Colina.
Continuando a explorar esta alma excepcional que esteve presente na primeira metade do século XX, encontramos a descrição de locais que não mais existem hoje:
Fechada, sem adornos, quase esquecida, A velha Santa Cruz, através dos contornos do ambiente Parece ter saudades de outra vida Quando ali se reunia e delirava a gente
Que aspecto pobre, que simplicidade! Dos dias de fulgor nada mais resta... Naquele tempo todo o povo da cidade, Em bandos forasteiros, Vinha ali assistir aos encantos da festa.
E era o samba, o batuque, os tristes cantos, Dos violeiros, com seus prantos, Doces lembranças do país natal... A branca ermida, toda enfeitada, Com as flores mais belas, Sorria aos beijos puros das estrelas, No amplo docel da noite extática e aromal!
Hoje, na paz de uma recordação, Está triste a pensar nas mortas alegrias, A volta da primavera, Os áureos sonhos dos passados dias...
Houve publicação póstuma em 1959 das “Poesias de Francisco Lagreca”, pela Editora José Aloisi Ltda onde estão depositadas 169 das suas obras.
Para continuar a sentir o perfil deste grande homem das letras, não poderíamos deixar de lembrar também trechos da Oração ao Salto:
Meu rio caudaloso, meu dolente rio Amo-te assim, indômito, bravio, No turbilhão das ondas rumorosas! Amo-te assim em vagas tumultuosas, Rolando pelas pedras desnegridas, Cantarolando estas canções sentidas Com que embala o sono da cidade, Nas horas de silêncio e de saudade! Amo-te assim, no horrendo deste abismo. Porque ouvindo tua voz, eu penso, eu sismo, Que vim de ti, do teu revolto seio, Para melhor sentir o meu anseio, Para que eu possa com orgulho amar-te E o teu canto levar para toda a parte! ------------------------------------------- Quantas vezes, olhando-te bem de perto Olhos parados, um olhar aberto, No êxtase musical dos teus rumores, Evoquei os teus velhos pescadores! Quantas vezes na angústia do segredo A fitar-te na sombra do arvoredo Por me vires descrente e solitário, Como um piedoso, místico, sudário, Recolhestes, nas dobras de teu manto, A amargura infinita de meu pranto! Quantas vezes. Ao luar beijando as ondas Que vem descendo louras e redondas, Ao culto enternecido do lirismo, Fiz de teu seio um suave misticismo... Meu Deus, Senhor, que me deste a glória Dos humildes na vida transitória, Faz com que minha alma vibre e cante, Este som, esta vida extasiante... Senhor! Quero que a vida alheia às dores Seja a perpetuação destes rumores: Águas rugindo na fatal corrida, Sonoras, vivas, como a própria vida! Senhor! Transforma o meu viver tristonho Nesse divino abismo dos meus sonhos!
Caso esta concatenação não nos fosse ainda plenamente satisfatória, teríamos como outra sobeja manifestação trechos do: Piracicamirim Desconhecido, humilde, , Numa indolência sem fim, Desliza o Piracicamirim.
Sem cachoeiras, Sem rumores, Numa florida devassa, Veste uns ares sombrios, Estremece de arrepios.
Um chorão debruçado , entregue às mágoas Bebe toda a tristeza de há nas águas.
Mas, ó riozinho Segue a tua sorte Na penumbra do silêncio Há muitas almas assim, Quando ficares triste, Da tristeza dos desiludidos, Recorda-te de mim.
O Homem
Nascido nesta cidade, em 11 de março de 1883, Francisco Lagreca estudou no Colégio Piracicabano. Formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, tornando-se amigo de figuras notáveis da intelectualidade brasileira, tais como Olavo Bilac, Batista Cepelos , René Thiollier. Em 1906, bacharelou-se pelas "Arcadas" famosas e já se tornara conhecido pela beleza de seus versos. Conhecido como "O Poeta de Piracicaba".
Já aos 13 anos de idade, Lagreca se revelara poeta de rara inspiração. Foi quando escreveu o poema "O Salto", que foi enviada a Olavo Bilac (2), despertou também poeta, Brasílio Machado(3) admiração e respeito. Foi inspirado no espetáculo descrito por Lagreca, em "O Salto", que Brasílio Machado escreveu o poema que se tornou um dos símbolos de "Piracicaba", no qual fixou a imagem da "Noiva da Colina".
Era casado com Luiza Capellari Lagreca.
Pertenceu a uma brilhante boemia literária, com Batista Capelos (1), Renê Thioilierm(4) , Olavo Bilac, Nóbrega de Siqueira. Bilac, ouvindo-o falar em público uma vez, empolgou-se com a veemência de sua frase, com a sugestão de sua figura de tribuno, denominando-o de “a tempestade vermelha”.
"Adeus tempestade! Adeus amigo Golias" Um abraço de Olavo Bilac"
Ganhou menção honrosa na Academia Brasileira de Letras com o livro “Cidade do Amor” em 1922.
Foi um dos participantes da “Semana de Arte Moderna de 1922, ao lado de Graça Aranha (5), Oswald e Mario de Andrade, Guilherme de Almeida e outros.
A monografia “Apologia de Arte Moderna”, publicada em 1923 é de sua autoria. Outro livro, “Alma Nova” foi adotado em todas as escolas primárias do Estado de São Paulo. Colaborou intensamente com os jornais "Diário da Manhã", "Diário de São Paulo", "A Manhã", "Jornal do Commercio", nas revistas "A Cigarra", "Vida Moderna" e outras publicações. Em Piracicaba, a sua intensa produção literária foi publicada no "Jornal de Piracicaba". Tinha conhecimentos com Cassiano Ricardo (6).
Entre os múltiplos relacionamentos que tinha, encontramos nomes como João Chiarini(7) , João Ferraz de Toledo(8) , Samuel Neves (9), João Sampaio, Virgilio Leonardo, Zeferino Bacchi (10), Antonio Calil, Pe Martinho Salgot, Hélio Penteado de Castro(11) , Benedito Dutra Teixeira (12), João Dutra (13), José Mello Ayres (14), Pedro Cofanni, Júlio Prestes FOTO, Emília de Castro Eça de Queiroz(15).
Se abraçava ao panteismo, sabia respeitar e não denegrir outros valores filosóficos.
Por duas vezes escreveu nosso ilustre jornalista piracicabano Dr. Fortunato Losso Neto sobre esta marcante personagem que abrilhantou esta cidade. A primeira vez foi em 11 de dezembro de 1960, e que provavelmente constitui-se em depoimento único mostranto sua pessoa incisiva e marcante. Estas letras foram republicadas no Jornal de Piracicaba de 14 de novembro de 2010, e não poderíamos nos furtar de relembra-ls na íntegra.
Uma das figuras piracicabanas mais interessantes do primeiro quartel deste século foi, sem dúvida, a do poeta e tribuno Francisco Lagreca. Seu aspecto físico um homenzarrão apoplético, cabelos de fogo, pele sardenta, olhar penetrante, induzia um temperamento ardente, uma personalidade pugnaz e combativa. Em parte, a impressão era verdadeira. Desde os bancos acadêmicos, Francisco Lagreca se revelou um inconformado com as injustiças e ficou célebre com seu opúsculo Em Defesa do Mestre, queescreveu para defender Eça de Queiroz de críticas ao seu valor literário.
Por toda a vida, esse homem curioso e cheio de aparentes contradições, mostrou a ardente chama que o consumia quando defendia pontos de vista, não só no terreno profissional como no jornalismo ou na política. Ninguém mais inflamado, numa oração popular. Seu verbo ribombava pela multidão, elevava a temperatura emocional dos ouvintes e na peroração já possuía todas as vontades coletivas a seu lado, e levaria o povo para onde quer que desejasse, para a revolução sangrenta ou para o voto em massa.
Eu o conheci ainda na meninice. Residindo eu na rua da Boa Morte, Francisco Lagreca construiu uma casa residencial na área justamente de minhas andanças de moleque, o prédio onde hoje mora Luiz Dias Gonzaga (atual rua Alferes José Caetano esquina com a rua D. Pedro II). Passava por ali e via aquele homem grandalhão, de roupa clara e corrente de ouro atravessada no colete, de voz tonitroante, seguindo as obras, conversando com os pedreiros amistosamente. Foi nessa oportunidade que se me gravou fundamente a figura de Francisco Lagreca. O homem se achava ali na esquina vendo a construção quando transitava pela rua Alferes uma carroça tirada por animal muito magro, que visivelmente não conseguiu vencer o esforço necessário ao transporte de carga excessiva que enchia o veículo. E em dado momento fraquejou, dobrou os joelhos, arquejando. O carroceiro, em brutamontes sem entranhas, lept. lept, lept com a chibata no lombo do animal.
Uma cena inédita para mim se de¬senrolou então: Francisco Lagreca atravessou a rua fuzilando, tomou violentamente das mãos do carroceiro o instrumento de tortura, e desandou numa saraivada de impropérios, em defesa do animal tão impiedosamente mal-tratado por aquele que lhe explorava o trabalho, até as últimas consequências. O bruto, atônito pelo inopinado da intervenção do causídico. e certamente lhe reconhecendo a determinação de enfrentar a situação, desmanchou-se em desculpas, alinhavando umas razões que ainda mais exasperavam o ardoroso defensor dos animais.
Com o decorrer dos tempos, pude acompanhar a atuação de Francisco Lagreca, como representante nesta cidade da Sociedade Protetora dos Animais, uma entidade do ação anodina e platônica,quando não tem homens quesintam no fundo da alma, como o saudoso poeta piracicabano, toda a grandeza dessa solidariedade para com os pobres animais amigos do homem, Como São Francisco do Assis, Francisco Lagreca via nos entes irracionais que nos rodeiam algo de profundamente respeitável: o irmão cão, o irmão boi...
Ao que parece, Franciseo Lagreca está fazendo imensa falta em Piracicaba, na sua atuaçãovigorosa em defesa dos pobres animais de trabalho. Vemo-los muito frequentemente magros, doentes, subnutridos, submetidos a excessivo trabalho, ao sol ardente, sempre pacientes, explorados por gente sem alma. Muitas vezes surpreendemos um olhar triste, uma expressão dolorosa nesses pobres companheiros, deste fundo vale de lágrimas. Será que a inspiração, o exemplo de bondade desse grande amigo dos animais não tocará a consciência desses brutos, fazendo ressurgir em nossa torra o espírito de caridade, que há tanto tempo desertou de seus empedernidos corações?
Também as linhas abaixo são do jornalista Losso Neto:
"Francisco Lagreca pode ser chamado o poeta de Piracicaba por excelência. Ninguém foi mais fiel, nem mais constante, em seu arrebatado amor pela cidade natal. Ninguém lhe descreveu as belezas naturais com maior paixão. (...) tudo fala gritantemente de Piracicaba, imprimindo uma veracidade tão fiel, que se sente o poeta e a terra em comovedora comunhão."
O Jornal de Piracicaba de 23 de agosto de 1944, uma quarta feira, assim se referiu ao passe de Lagreca em primeira página:
Faleceu ontem nesta cidade o poeta Francisco Lagreca.
A cidade foi abalada por uma notícia infausta que a encheu de pesar: faleceu o poeta Francisco Lagreca, o suave cantador das belezas de Piracicaba.
Acabrunhado ultimamente por pertinaz enfermidade, que o fez recolher-se por longos meses, retirado de toda a atividade pública, Francisco Lagreca veio a falecer ontem, às 11 horas, em sua residência.
O dr. Francisco Lagreca era filho de do Sr. Pedro Paulo Lagreca e de d. Maria Leopoldina Lagreca, residente em São Paulo, era casado com a a sra. D. Luiza Lagreca deixa uma filha, casada com o sr. Dr. Nelson da Silva.
Deixa os seguintes irmãos: Leopolde de Castro Lagreca, engenheiro residente em São Paulo; José de Castro Lagreca, advogado residente em São Paulo; Benigno de Castro Lagreca, residente nesta cidade; Galileu de Castro Lagreca, farmacêutico residente em Santos e Silvério de Castro Lagreca, dentista residente em São Paulo, Julieta, já falecida; Rosa, Leonor, Violeta, Helena, Zilpa e Gersemina, todas casadas e residentes em São Paulo. Deixa ainda um neto, Francisco Lagreca da Silva.
O seu sepultamento se dará hoje, às 12 horas, saindo o féretro da rua 15 de Novembro 1461.
Piracicabano apaixonado, plasmou em seus versos a terra natal, desde o frescor de suas madrugadas nevoentas até o poente incomparável da Rua do Porto, desde os oceanos verdes dos canaviais intermináveis até a grinalda imaculada do salto de Piracicaba. Se foi panteísta, soube ser também ... sentindo o rumo .... mas que sofrem na sua terra. ????
Militou na política e como tribuno popular,conseguiu notoriedade. Arrastava multidões com sua voz trovejante, sua figura máscula, seus argumentos persuasivos.
Acompanhou o movimento modernista de nossa literatura com Graça Aranha, Osvald de Andrade, Mário de Andrade, Menoti Del Pichia, Brecheret, Guilherme de Almeida.
Foi jornalista militante, colaborando intensamente no Jornal por muitos anos. Foi redator- fundador do Diário da Manhã de São Paulo, juntamente com Batista Cepelos. Colaborou com O Jornal do Comércio, A Manhã, Diário de São Paulo e em numerosas revistas dói país. Foi um dos iniciadores de Cassiano Ricardo no jornalismo.
A sua bagagem literária, grande e valiosa “Em Defesa do Mestre”, um magnífico estudo literário sobre Eça de Queiroz, “Alma Nova”, “Apologia da Arte Moderna”, Porque Não me Ufano de meu País” e outros livros a publicar, como Figuras de Proa, “Casa de Esquina”, “Exaltação”, Musa Humilde”.
Francisco Lagreca candidatou-se à Academia Paulista de Letras, na vaga deixada por Gustavo Teixeira, vencendo-o Afonso Schmidt.
A legenda do Monumento aos Voluntários Piracicabanos, que se ergue na Praça 7 de setembro é de sua autoria, vencendo o concurso instituído pela Prefeitura Municipal.
Em seu livro “Alma Nova” recebeu menção honrosa da Academia Brasileira de Letras, com voto de louvor especial do acadêmico conde de Afonso Celso.
Depois de longa carreira no foro desta cidade de das cidades circunvizinhas, passou o dr. Lagreca a exercer o cargo de tabelião de Piratininga e ultimamente em Pederneiras, de onde se afastou por motivo de saúde.
Cremos de importância a leitura cuidadosa destas poesias, pois nelas está descrita a Piracicaba da primeira metade do século XX, como o relatado no texto, e outras, como o Morro do Enxofre, o Jardim da Ponte e outros pontos da cidade.
Obras Em defesa do Mestre 1906 Piracicaba Passado e Presente 1988? Porque não me Ufano de Meu País 1919 Cidade do Amor 1922 Bibliografia Sistema DEDALUS: Banco de Dados Bibliográficos da USP julho 2010 Poesias de Francisco Lagreca Francisco Lagreca Editora Aloisi Ltda 1959 Lar dos Velhinhos de Piracicaba A Saga e a Senda de um Ideal Olivio N. Alleoni Editora Unimed 2006 Almanaque 2000 Memorial de Piracicaba, Cecílio Elias Neto Yangraf Gráfica e Editora Almanaque de Piracicaba 1955 Hélio M. Krähenbühl, Editora João Mendes Fonseca Jornal de Piracicaba 23 de agosto de 1944 http://www.culturabrasil.pro.br/unificacao.htm http://pt.wikipedia.org/wiki/Murillo_La_Greca Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Notas 1- Batista Cepelos figura na Poesia Simbolista de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Sílvio Romero, ao tratar dos parnasianos, depois de citar Mário de Alencar, Goulart de Andrade e outros, acrescenta, em nota: "A estes devem-se juntar os recentes: Jonas da Silva, C. Porto Carreiro, Batista Cepelos e Luís Edmundo". Em verdade, Cepellos tinha traços mais simbolistas, sobretudo na obra Vaidades. No entanto, é justo que por causa de Bandeirantes, obra que mereceu prefácio de Olavo Bilac, seja inserido nesse rol de autores parnasianos. Enveredou também pelo romance realista, publicando O vil metal, em 1910, que mereceu crítica de Lúcia Miguel-Pereira, em sua Prosa de Ficção, página 139: "Também o poeta Batista Cepellos se mostrou, com O vil metal (1910), um naturalista retardatário. Nessa tentativa de estudar o meio argentário de São Paulo e a ação corruptora do dinheiro adivinha-se o autor superior à obra, mais narrador - e bom narrador, embora por demais preso a Eça de Queirós - do que criador. Algumas páginas cheias de vida e movimento, como as caricaturas do literato falhado e do falso jornalista, explorador dos ricaços, mal compensam o convencionalismo dos tipos". Teve os estudos financiados pelo senador Peixoto Gomide, e a convivência levou o escritor a apaixonar-se pela filha do senador. O casamento foi marcado, mas o político repentinamente assassinou a filha e, em seguida, se suicidou, revelando antes que os noivos podiam ser irmãos. O escritor, chocado, mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1915, foi nomeado promotor público para Cantagalo, localidade do interior do estado do Rio de Janeiro. Tentara, por três vezes sem êxito, ingressar na Academia Brasileira de Letras. No mês da inauguração do Teatro Trianon, a Companhia de Cristiano de Sousa levou à cena a peça Maria Madalena, tendo feito onze apresentações, incluindo um festival de homenagem ao poeta-dramaturgo agendado para o dia 10 de maio que acabou não ocorrendo. Cepelos foi encontrado morto junto às pedras da praia que existia na rua Pedro Américo, no Catete. Não se sabe, até hoje, se teria se suicidado ou caído acidentalmente, pois era míope.
2- Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista e poeta brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Conhecido por sua atenção a literatura infantil e, principalmente, pela participação cívica, era republicano e nacionalista. Bilac escreveu a letra do Hino à Bandeira e fez oposição ao governo de Floriano Peixoto. Foi membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Em 1907, foi eleito “príncipe dos poetas brasileiros”, pela revista Fon-Fon. Bilac, autor de alguns dos mais populares poemas brasileiros, é considerado o mais importante de nossos poetas parnasianos. No entanto, para o crítico João Adolfo Hansen, "o mestre do passado, do livro de poesia escrito longe do estéril turbilhão da rua, não será o mesmo mestre do presente, do jornal, a cronicar assuntos cotidianos do Rio, prontinho para intervenções de Agache e a erradicação da plebe rude, expulsa do centro para os morros"
3- Brasílio Augusto Machado de Oliveira (mais conhecido como Brasílio Machado) nasceu em São Paulo, em setembro de 1848. Cursou Direito nas "Arcad-as", onde foi contemporâneo de Rui Barbosa, Castro Alves, Afonso Pena e Rodrigues Alves. Casou-se com Dona Maria Leopoldina de Sousa e, depois de formado, foi promotor em Piracicaba, autor da expressão "Noiva da Colina", para home¬nagear a cidade. De volta a São Paulo, foi professor da Faculdade de Direito e, como advogado, precursor do uso da Medicina Legal no estudo e resolução de crimes. Foi membro da American Academy of Political and Social Science e, como escritor, foi fundador e primeiro presidente da Academia Paulista de Letras; autor das obras: Madressilva, Discursos, José de Anchieta e Obras Avulsas. Na Academia criou a expressão, até hoje famosa, "Paulista de 400 anos". Brasílio não teve êxito na carreira política. Durante o Império, pertenceu ao partido Liberal e, apesar de monarquista intransigente era respeitado pelos republicanos. Faleceu em 5 de março de 1919.
4- René Thiollier (São Paulo, 1882 - 1968) foi um advogado e escritor brasileiro.[1] Seu pai foi o francês Alexandre Honoré Marie Thiollier e sua mãe Fortunata de Souza e Castro Thiollier, irmã da Baronesa de Itapetininga e Baronesa de Tatuí, proprietária de todo o vale do Anhangabaú, Antonio Bento de Souza e Castro, o abolicionista e Clementino de Souza e Castro, o Presidente da Intendências no período entre a Monarquia e a República. Clementino ocupou o cargo de Presidente das Intendências, cargo que foi o embrião para o título de Prefeito. René Thiollier foi um intelectual que deu uma enorme contribuição para São Paulo. Estudou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, do Largo de São Francisco, formando-se na turma de 1906. Foi um dos fundadores do TBC - Teatro Brasileiro de Comédia, era conselheiro no Liceu de Artes e Ofícios. Foi um importante organizador da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Amigo do prefeito Arthur Bernardes, foi René Thiollier quem conseguiu alugar o Teatro Municipal, pagando o aluguel de seu próprio bolso, dando como garantia seus bens pessoais, para que o evento tão polêmico e revolucionário nas artes, tivesse um palco a altura de tão importante evento cultural. René Thiollier ainda pediu ao Presidente do Estado, seu amigo também, para que patrocinasse parte da vinda dos artistas do Rio de Janeiro para a tão esperada Semana de 22.
5- José Pereira da Graça Aranha (São Luís, 21 de junho de 1868 — Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 1931) foi um escritor e diplomata brasileiro, e um imortal da Academia Brasileira de Letras, considerado um autor pré-modernista no Brasil, sendo un dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922[1]. Devido aos cargos que ocupou na diplomacia brasileira em países europeus, ele esteve a par dos movimentos vanguardistas que surgiam na Europa, tendo tentado introduzi-los, à sua maneira, na literatura brasileira, rompendo com a Academia Brasileira de Letras por isso em 1924. Nascido em uma família abastada do Maranhão, Graça Aranha graduou-se em em Direito pela Faculdade do Recife e exerceu cargos na magistratura e na carreira diplomática. Assumiu o cargo de juiz de Direito no Rio de Janeiro, ocupando depois a mesma função em Porto do Cachoeiro (hoje Santa Leopoldina), no Espírito Santo. Nesse município ele buscou elementos necessários para criar sua obra mais importante, Canaã. Esta é um marco do chamado pré-modernismo, publicada em 1902, junto com a obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Graça Aranha apresentou uma visão filosófica e artística assimilada de fontes muito diferentes e às vezes contraditórias. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922, sendo um dos seus organizadores, quando pronunciou o texto A Emoção Estética na Arte Moderna, defendendo uma arte, uma poesia e uma música novas, com algo do "Espírito Novo" apregoado por Apolinnaire[2]. Rompe com a Academia Brasileira de Letras em 1924, a qual acusou de passadista e dotada de total imobilismo literário. Ele chegou a declarar "Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, morra a Academia!".
6- Cassiano Ricardo (26/07/1895, São José dos Campos (SP - 14/01/1974, Rio de Janeiro (RJ) ) Cassiano Ricardo Leite era filho de Francisco Leite Machado e Minervina Ricardo Leite. Fez os primeiros estudos na cidade natal. Iniciou o curso de Direito em São Paulo, concluindo-o no Rio, em 1917. De volta a São Paulo, participou do movimento de reforma literária iniciada na Semana de Arte Moderna (1922). Também fez parte dos grupos nacionalistas "Verde Amarelo" e "Anta", ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho e outros. No jornalismo, Cassiano Ricardo trabalhou como redator no "Correio Paulistano", e dirigiu "A Manhã", do Rio de Janeiro. Em 1924, fundou a "Novíssima", revista literária dedicada à causa dos modernistas e ao intercâmbio cultural pan-americano. Também foi o criador das revistas "Planalto" (1930) e "Invenção" (1962). Em 1937 fundou, com Menotti del Picchia e Mota Filho, a "Bandeira", movimento político que se contrapunha ao Integralismo. Dirigiu, na mesma época, o jornal "O Anhangüera", que defendia a ideologia da Bandeira, condensada na fórmula: "Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas." Também pertenceu ao Conselho Federal de Cultura, à Academia Paulista de Letras e à Academia Brasileira de Letras. Poeta de caráter lírico-sentimental, em seus primeiros livros, "Dentro da Noite" (1911) e "A Flauta de Pã" (1917), ainda está preso ao Parnasianismo. A partir de "Vamos Caçar Papagaios" (1926) adere ao movimento de 1922, embora ainda não tenha superado a sensibilidade parnasiana. Sua linguagem incorpora os valores da prosa, com definições e explicações freqüentes, mas sem prejuízo da linguagem poética. Obras mais expressivas: "Borrões de Verde e Amarelo" (1927), "Martim Cererê" (1928) e "Marcha para Oeste" (1940).
Acompanhou de perto as experiências do Concretismo e do Praxismo, movimentos da poesia de vanguarda nas décadas de 50 e 60.
7- Folclorista piracicabano.
8- Agricultor, exportador de laranjas na primeira metade do século XX.
9- Médico e prefeito de Piracicaba da primeira metade do século XX.
10- Médico oftalmologista em Piracicaba no século XX.
11- Professor da Escola Normal Sud Menucci de Piracicaba.
12- Prof de música do Colégio Assumpção, Escola Nornal.
13- Professor de artes e pintor de Piracicaba.
14- Último Diretor Vitalício da ESALQ- professor de química da ESALQ.
15- Esposa de Eça de Queiroz.
Obs. do autor:
Encontramos três grafias do sobrenome: Lagreca, Lagrecca e La Greca, todos pertencentes à mesma família.
Há um ano atrás, em fevereiro de 2009 havíamos postado no youtube.com um pequeno filme falando do Prof. Dr. Nagib Nassar e seu trabalho desenvolvido no Brasil englobando pesquisa e melhoramento da mandioca. A conseqüência prática desta pesquisa foi a implantação de uma mandioca modificada na costa leste da África, com maior teor protéico, colaborando na diminuição da fome naquele continente. ((WWW.youtube.com procurar por MEMORIAL PROF. NAGIB NASSAR http://www.youtube.com/watch?v=9YWo4KTPung ).
Rememorando, Prof. Dr. Nagib Nassar (19/09/1938), egípcio nascido em Asyut, professor da Universidade do Cairo, chegou ao Brasil em setembro de 1974 e exerceu atividades junto ao Departamento de Genética da ESALQ, da Universidade de Goiás, Rio Grande do Sul, Viçosa, Brasília, Pan American Center CATIE. Naturalizou-se brasileiro.
Atualmente, mesmo aposentado e enfrentando alguns problemas de saúde, este incansável pesquisador não esmorece em seu intuito de deixar seu nome indelevelmente marcado como elemento que durante sua existência lutou para combater o terrível flagelo da fome mundial. Suas pesquisas mostraram variedade de mandioca que possui maior quantidade proteica que outras. Agora suas pesquisas identificaram uma variedade pouco conhecida de mandioca que possui até 50 vezes mais de caroteno e 20 vezes mais a dosagem habitual de zinco e ferro.
Tudo que venhamos a falar sobre este cidadão será pouco para poder agradecer o seu trabalho aos mais voltado aos necessitados.
A única forma de podermos expressar por todos nós e por todos aqueles cujos aplausos talvez não possam chegar até esta fortaleza é:
Muito obrigado por tudo, por uma vida dedicada a melhorar a existência dos homens, Prof. Nagib Nassar.
P.S. O B-caroteno é substância primordial para produção de vitamina A, atuando na proteção da retina e proteção do tecido epitelial do corpo humano.
Notícias mais detalhadas poderão ser lidas nos sites abaixo:
“Escrevo somente para mostrar a grande misericórdia de Deus para comigo, pobre pecador”. Frei Paulo
Desde menino eu sentia atração para São Francisco de Assis. Meu pai contava algo a respeito dos capuchinhos do seminário de São Paulo, os quais eram capelães do Convento de Santa Clara, em Sorocaba. Desejava ser frade. Diziam-me, porém que brasileiro não podia: era proibido por lei do Império (lei feita mas não aprovada). Como eu gostasse de desenhos, os amigos de meu pai queriam mandar-me estudar na Europa; meu pai permitia de boa vontade, minha mãe era um pouco contrária. Eu, sempre fraco, adoentado, medroso e acanhado, não tinha muita vontade. Mas Deus Nosso Senhor me preservou dos perigos que poderia encontrar na escola de desenho, pintura, etc. Ele me guardava para ser filho de São Francisco, seu querido imitador. Continuava desenhando, com 14 anos entrei a trabalhar com meu tio materno, pintor de casas, ficando com ele até 1888, quando comecei a trabalhar por conta própria. Em 1891 comecei a aprender fotografia, no que trabalhei o8 anos. Interrompi o serviço por certo tempo e depois reiniciei, mas já sem gosto, ainda mais que neste tempo minha querida mãe faleceu. A família foi indo: o pai viúvo, o irmão mais velho casado, o mais moço estudando música. Em 30 de outubro de 1899 faleceu meu pai. Como eu estava noite e dia à sua cabeceira, nesse mesmo dia resolvi entrar no convento. Após trabalhos e todas as dificuldades que se podem imaginar- sempre porém com esperança de conseguir- a 25 de dezembro desse mesmo ano fui a São Paulo, ao convento de São Francisco, onde me atendeu Frei Vicente de San Giácomo, que chamou o Superior, frei Bernardino de Lavalle. Como achasse que eu não suportaria o rigor da Ordem, aconselhou-me a it ter com os Salesianos ou Jesuítas. Nós, para irmãos, já temos muitos, disse. E para estudar, só sendo menino. (Ele pensava que eu tinha vontade de ser irmão leigo, sendo já minha idade longa). Oh! Que decepção. Voltei a Sorocaba triste, mas sempre com esperança. Neste tempo começou em Sorocaba a epidemia de febre amarela, da qual fui vítima, ficando muito mal. O confessor que chamei disse-me, entretanto, que eu não morreria, pois ainda havia de ser religioso capuchinho. Tendo sarado, lembrei-me de escrever ao cônego Lessa, que já havia anos residia em São Paulo e era amigo de nossa família. Depois de ter falado com Frei Bernardino de Lavalle, escreveu-me o cônego, fazendo-me ver os deveres do irmão capuchinho: cozinhar, lavar, varrer, etc. se eu queria sujeitar-me, podia vir e experimentar se agüentaria. Respondi que com a graça de Deus, estava pronto para tudo. Ah! Como senti o coração bater forte de contentamento. Chegado o dia da partida, meu irmão casado me acompanhou até a estação, abraçamo-nos e pronto. Em São Paulo o Cônego levou-me à Igreja de São Francisco da Ordem Terceira. Era o dia 2 de agosto de 1900 e conduziu-me à Igreja de Santo Antônio para lucrar a indulgência de Porciúncila. No convento de São Francisco o Pe. Bernardino de Lavelle mostrou-se contentíssimo. Lembrei-me do que ele dissera em dezembro – é melhor ir com os jesuítas- e então me veio à mente que em pequeno, meu pai era alfaiate, fazia batinas para coroinhas e eu servia de manequim. Minha mãe olhava e dizia: Parece jesuíta. Magro como santo de roça, que é só rosto mãos e o mais sarrafos... Dia 6 o frei Bernardino me levou a Piracicaba, aonde chegamos à tarde. Depois do jantar fui entregue ao Padre Mestre de Noviços, frei Felix de Lavalle. Já no dia 7 comecei a ajudar na cozinha, lavar, serrar lenha, etc, e assistir conferências do Pe. Mestre. Dia 11, cerca de 4.30 da tarde, foi a vestição, quando deixei o João Batista de Melo para receber o frei Paulo M. de Sorocaba. Era vigília de Sta. Clara. -Então frei Paulo, vamos experimentar? Você acostumará? Oh! Se Deus quiser, com Sua Santa Graça, havemos de perseverar. Irmãos, parentes, conhecidos e colegas: adeus.
Frei Paulo M. de Sorocaba
Década de 1870: Sorocaba está em plena explosão de civilização. Começara a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, que trouxe consigo muita gente culta, comerciantes e artesões. Possuía já nesta época o teatro São Raphael (fundado em 1844), jornais, bandas de música, orquestra, e a população tinha oportunidade de assistir espetáculos com artistas famosos, companhias líricas e similares. O teatro também era utilizado pelas famílias abastadas em suas reuniões festivas. João Batista Dimas de Melo (Frei Paulo Maria de Sorocaba) nasceu em 24 de junho de 1873 em Sorocaba na Rua da Santa Cruz da Composição, em plena noite de São João. Filho de Pedro Rodrigues de Melo e Frutuosa da Rocha Pinto, descendentes de índios do Rio Grande do Sul. Apesar de pessoas humildes e piedosas, souberam educá-los santamente. Seu pai era alfaiate, confeccionando batinas para coroinhas e também músico, fundador da Banda de Música Sete de Setembro (de Sorocaba) e provavelmente ensinou-lhe os rudimentos musicais, que depois foram desenvolvidos. Era o terceiro filho do casal com nove filhos, cinco dos quais deixaram a existência na infância: Joaquim, Antonio Demétrio, João Evangelista, Antonio Leocádio, Maria Germano e Antonio Mateus. José Raimundo faleceu em 9 de agosto de 1908, o penúltimo, Francisco Dimas de Melo, pintor profissional, regente da Banda de Música Santa Cecília (de Sorocaba) faleceu em 31 de agosto de 1936 vítima de queda de escada quando trabalhava na pintura da Santa Casa. Seu avô materno, José do Pinho, foi exímio armador de presépios, executando as próprias peças que necessitava. Torna-se óbvio que este fato deve ter exercido atração sobre o menor, em plena fase de desenvolvimento. As primeiras noções de desenho, quem as transmitiu por volta de 1885 foi um engenheiro que lhe ensinou os traçados geométricos a mão livre. Seu nome seria Esmiel (o nome inteiro foi perdido). No ano seguinte, recebeu aulas de Antonio José da Rosa, ourives, desenhista, entalhador e músico. Recebeu aulas de desenho a “crayon”, aprendendo a desenhar figuras, retratos, gravuras litografadas. Quando este mestre mudou-se de Sorocaba, os admiradores das qualidades artísticas do menino, pessoas de posse e amigas de sua família quiseram mandá-lo estudar na Europa, mas a sua timidez e falta de coragem em afastar-se do lar contribuíram significativamente na recusa da oferta. João Batista começou aos nove anos a aprender violino com Salustiano Zeferino de Santana, estudando no próprio instrumento do pai e que conservou até sua morte. Deveria tocar bem, visto que quatro anos após, durante a visita de uma companhia lírica espanhola, havia sido convidado para ser o primeiro violinista, o que declinou por timidez. Em 30 de outubro de 1899 seu pai vem a falecer. Fica extremamente abalado com o fato e é neste tempo que tenta pela primeira vez adentrar à Ordem Franciscana dos Frades Capuchinhos. Em sua primeira tentativa de adentrar à Ordem, foi desestimulado, retornando novamente a Sorocaba. Nesta fase, vem adoecer seriamente de febre amarela. Quando fazia a recomenda do corpo, o religioso que o atendia estimulou-o, dizendo que não iria morrer. Depois de curado, parte novamente em agosto de 1900 para São Paulo, decidido mais do que nunca a cumprir seu objetivo. Frei Bernardino de Lavalle o enviou à Piracicaba no convento do Sagrado Coração de Jesus, onde permaneceu alguns dias observando a vida capuchinha. No dia 9 de agosto fez a vestição. O irmão, que havia iniciado o noviciado em 1900, recebeu o hábito em Piracicaba e adotou o nome de Frei Paulo Maria de Sorocaba. Como não tivesse feito os estudos clericais, era um simples irmão leigo. Foi enviado à Taubaté, onde exerceu as atividades de porteiro, cozinheiro e sacristão. Nas horas vagas é que estudava violino e harmonia musical. Antes de partir para a Itália, entre 1903 a 1906 foi mandado para o interior do sul de São Paulo a fim de catequizar indígenas e formar povoados de Campos Novos de Paranapanema. Voltou doente destas obrigações, tendo permanecido em São Paulo para tratar-se. Em 1912 parte para a Europa, especificamente Itália, onde permanece por um ano. Neste tempo aperfeiçoa seus conhecimentos sobre pintura. Foram seus professores Camile Bernard da Academia de Mônaco e Antonio Meyer, pintor da escola veneziana nascido em Mori, sul do Tirol (1862-1921), discípulo de grandes pintores da época e restaurador de quadros clássicos. Retornando por volta de 1913-1914 para Piracicaba, onde permanece até 1924, pintou os afrescos no Convento do Sagrado Coração de Jesus. Nas capelas laterais e no altar mor pintou “Os doze apóstolos”. Depois disto, esteve em Botucatu e Santos, retornando a Piracicaba ao Seminário São Fidelis. Nesta segunda fase pintou 6 grandes painéis: "São Fidelis pregando”, São Fidelis defendendo tese", "Martírio de São Fidelis", “São Fidelis vestindo hábito de Capuchinhos”, “Glória de São Fidelis” e “São Fidelis menino”.
São Fidelis, antes de ser frade, chamava-se Marcos Roy, filho de João Roy e Genoveva Roy. O primeiro quadro representa o menino Marcos Roy dando lição ao padre doutor Jonas Weias, beneditino, juntamente com o padre Filipe Reach, também beneditino. Isto somente é uma amostra como a análise de pinturas pode mostrar-se difícil.
Após 3 anos de estudo, concluiu sua mais importante obra, “Santa Ceia”, que se acha em Mococa, no Convento de São José. Em 1924 estava em Botucatu para pintar o altar de Santa Teresinha. Em 1925 ou 1926 estava em Santos. Suas obras brotavam dos mais diversos meios: terracota, pinturas a óleo, crayon, bico de pena, carvão. Há obras mecânicas como meridianos ou relógios solares. Desenhou as fases da último eclipse que assistiu. Suas pinturas possuem traços de pintura acadêmica, mas com certo grau de ingenuidade. Seus murais encantam pela espontaneidade da expressão, não só dos desenhos bem como das cores da composição. Relacionar seu legado artístico torna-se difícil, em virtude do grande número de pinturas, de murais e outras obras que executou nos mais diversos locais. Comentando a respeito da Av. Independência, na altura do Seminário Seráfico São Fidelis, o cronista de um jornal na década de 1940 observa sobre o grande número de crianças com pranchetas de desenho e material de pintura que se observava ”Cadinho de obras finíssimas, crisol de belezas, refúgio de paz, de trabalho fecundo, de aperfeiçoamento moral, o atelier de Frei Paulo é bem um viveiro de artistas que Piracicaba muito deve”. Algumas pessoas consideram Frei Paulo de Sorocaba um pintor clássico com traços primitivistas, enquanto outros o consideram como possuidor de um realismo ascético, influência de seu espírito ascético e místico. Segundo um crítico, apenas um de seus discípulos, João Adâmoli (1911-1980) absorveria dele este conteúdo, aplicando-o à paisagem e levando esta a despir-se progressivamente de seus elementos secundários, até exibir sua essência formal, no limite entre a impressão e expressão, no tênue limiar entre a forma e a abstração. Frei Paulo foi agraciado com o primeiro lugar no II Salão de Belas Artes de Piracicaba. Frei Paulo tinha uma personalidade toda especial. Ensinava com bondade. Nunca dizia não a quem quer que fosse. Nunca desanimava quem quisesse aprender. Estimulava a todos, mesmo aqueles que a natureza havia negado o dom da arte. Jamais teve alunos, sempre teve discípulos, seguidores convictos. Talvez nem todos saíssem pintores, mas saíram homens de bem, tocados pelo sentimento puro da bondade. Outros, a exemplo do mestre, se fizeram sacerdotes, como Frei Damião e os irmãos Mutschelle. Suas obras não conheciam os tons audaciosos da inovação das escolas abstrusas, com cores violentas e composição chocante (na época). Em sua obra há uma suavidade intensa, que atrai e comove. Não era somente o espírito contemplativo que transmitia em suas pinturas, mas havia “um que” de curiosidade polimorfa associada. Existe um disparate existencial em sua pessoa. Sempre foi colocado como uma pessoa frágil, doentia, mas longevo de 82 anos. Deus esteve ao seu lado, ao lado de um homem que aliava as virtudes de um santo e as qualidades maravilhosas de artista e mestre, que deixava apaixonado seus discípulos e seguidores fervorosos, que nunca cessaram de venerá-lo. Entre estes nomes poderíamos lembrar o de Eugênio Nardin, Angelino Stella, Ângelo P. Sega, Manoel Rodrigues Lourenço, Manoel Martho, João Adâmoli e outros, (que me desculpem a não referência de todos os muitos outros pelo puro pecado do desconhecimento). Frei Paulo Maria de Sorocaba faleceu em Piracicaba na tarde de 11 de julho. De seus 82 anos e 17 dias de vida, passou 54 anos e 11 meses na Ordem Capuchinha.
Em 23 de fevereiro de 1954 foi realizada a Exposição comemorativa ao Frei Paulo na Pinacoteca Municipal. Nada mais que uma singela e justa homenagem a um frei leigo, que graças ao seu desejo incansável, consiguiu atingir pontos que pouquíssimos conseguem.
Com sua simplicidade, sua doação, oconseguiu fazer oficiosamente uma escola de pintores em Piracicaba. Desta escola nasceram nomes que elevaram o nome de nossa cidade além dos simples muros que a cercam, e elas espalharam-se não apenas por São Paulo, mas por todo o Brasil, e inclusive cruzaram fronteiras atingindo outros paizes.
Na histórica última foto, temos da direita para a esquerda os senhores Benedito Evangelista Costa, Archimedes Dutra, Monsenhor José Nardin, pintor Angelino Stella, Eugênio Nardin, vice prefeito Américo Perissinoto, Álvaro Sega, Antonio Pacheco Ferraz, Hélio e Elias Rodrigues Conceição.
Meus mais sinceros agradecimentos à Seminário Seráfico São Fidelis de Piracicaba, frei Sermo e à sua bibliotecária Araci Lopes pelo material disponibilizado; aos Frades Capuchinhos de Piracicaba na pessoa do frei Saul pelos depoimentos, ao Sr. Lauro Stipp que gentilmente apoiou a realização destas linhas, fornecendo o material necesário para que ela se tornasse uma realidade, e por último o Sr. Fabio Monteiro, que tem cedido parte de seu horário da Rádio Educativa para divulgação dos fatos que constituem-se nas raízes de Piracicaba.
Piracicaba desde sua mais tenra idade, sempre foi uma cidade extremamente bem agraciada. E um destes foi o dom divino da música. Já no final do século XIX constava nesta cidade 50 residências com pianos. Podemos avaliar sua capacidade pelos anúncios de jornal, como este, retirado da "Gazeta de Piracicaba de 1882.
Piracicaba possuía uma Orquestra Sinfônica ainda no século XIX. Lazaro Lozano foi seu primeiro regente e a primeira apresentação pública ocorreu em 24 de março de 1900 na matriz de Santo Antonio.
Fabiano, irmão de Lázaro Lozano, era espanhol, nascido em 1865, professor de música, compositor, poeta e maestro. Em 1913 Fabiano fundou a “Orchestra do Theatro Cinema de Piracicaba”, que já estava estruturada em Piracicaba e era conhecida como “Orchestra de Fabiano Lozano” ou “Orchestra Lozano”. Dela participavam elementos como Erotides de Campos, Belmácio de Pousa Godinho, Benedito Dutra Teixeira. A primeira apresentação pública deu-se na Universidade Popular de Piracicaba no dia 12 de outubro de 1914, onde atualmente está a sede central do C.C.R. Cristóvão Colombo, na Rua Governador Pedro de Toledo com a Rua Prudente de Moraes. Não devemos confundir com a antiga sede alugada do Cristovão Colombo, que era na esquina da Rua Governador com a Rua São José, em prédio de propriedade do Dr. João José Correia. Lembro-me do fato pois quando criança, cheguei a assistir neste espaço diversos tipos de apresentações, entre elas de ballet. E neste local também foi sede do referido clube.
Orchestra Losano Identificados, da E para D: 3⁰- Erotides de Campos 4⁰- Fabiano Lozano
Detalhe da imagem anterior.
Também nas primeiras décadas do século XX viveu Carlos Brasiliense, um dos mais completos músicos de Piracicaba. Nascido em 1 de novembro de 1.894, era filho de Henrique Brasiliense e de Laura Kiehl Brasiliense. Era um autodidata que se deixou levar por uma profunda vocação musical, e todos os musicistas da época não hesitavam em chamá-lo de Maestro Carlos Brasiliense, ou moço, dizia Leandro Guerrini, “perfeito no solfejo rítmico, no solfejo tonal leitura de primeira vista, escola antiga, cheia de graça, de técnica de vivacidade.”
Melita e CarlosBrasiliense
O Maestro Carlos Brasiliense dirigiu a orquestra do Ísis Theatre, depois Politeama. Foi sua esposa Melita Brasiliense, mulher que se impôs pelo talento artístico e senso de caridade. Também foi professora de geografia no Colégio Piracicabano na década de 60. Carlos e Melita não tiveram filhos, mas adotaram algumas crianças.
Carlos Brasiliense foi o primeiro a colocar em pauta a música “Piracicaba”, de Newton de Mello, hino de nossa cidade. Também era membro da Orquestra Piracicabana. Tocava violino, rabecão, cello e viola. Faleceu em 16 de junho de 1953. Piracicaba começava a romper com seu passado. Carlos Brasiliense, ao morrer, já tinha sido esquecido.
Em 25 de maio de 1925 foi fundada também por Fabiano Losano a Sociedade de Cultura Artística. Em 6 de junho de 1929 músicos de Piracicaba preconisam a criação da Orquestra Sinfônica de Piracicaba. Mas a idéia não criou raízes. Foi então denominada de Orquestra Piracicabana, que se filia à Sociedade de Cultura Artística. Fazem parte desta orquestra, Regina do Lozano, musicistas como os Dutra, Leontino Ferreira de Albulquerque, e Eduardo Salgado. Ainda em 15 de outubro de 1929 a Orchestra Piracicabana e o Orpheon Piracicabano apresentavam-se no Teatro Santo Estevão.
Maestro Losano viaja em 1931 para o nordeste, quando então assume a regência o Dutra. Mas este, logo nas metade dos anos de 40, para assumir cargo no Departamento de Cultura, em São Paulo.
Orchestra Piracicabana em 1934 Regente: Benedicto Dutra Teixeira
Em 1946 a orquestra é reorganizada pela Cultura Artística, tornando-se autônoma por solicitação do Sr. Jaime Rocha de Almeida. Já ostentando o novo nome de Orquestra Piracicabana de Amadores, passa ser regida pelo maestro belga Edgard Von den Branden, que muda-se para Campinas algum tempo depois.
Orquestra Piracicabana de Amadores 1958 regente: Benedito Dutra Teixeira
Na década de 50, Dutra reassume a regência. Foi período de intensa atividade musical. Em 6 de janeiro de 1958 surge a Orquestra Rizzi, sob regências do Maestro Germano Benencase. Residia em Americana e era professor no Colégio Piracicabano.
Maestro Benencase
Em 1962, com o falecimento de Benedito Dutra Teixeira, a Orquestra Rizzi realiza conserto em na Società Italiana di Mútuo Soccorso em homenagem a este grande maestro. Tamém na mesma época, a Orquestra Rizzi e Piracicabana de Amadores começam a se fundir. A união oficial somente daria-se em 1965, quando adotaram o nome de Orquestrade Amadores Benedito Dutra Teixeira, sob a direção de seu filho Rossini Rolim Dutra e Egildo Pereira Rizzi. Esta Orquestra participou, em 1967, das festividades do 2º centenário da cidade apresentando-se sob a regência de Rossini.
Egildo Rizzi
Rossini Rolim Dutra
Após este período, o interesse pela Orquestra permanece, de maneira efetiva, sob a liderança dos irmãos Rizzi – Reginaldo, Rodolfo e Egildo – aos quais se soma Hélio Manfrinato, no início dos anos 90, consolidando-se o movimento pela sua ampliação. Assim, em 1991, inicia-se nova fase na vida da Orquestra, que chega a 50 músicos e realiza vários concertos. A partir de então, Hélio Manfrinato passa a ser o regente titular. Em 1994, finalmente, o sonho dos anos 20 se concretiza e surge a Orquestra Sinfônica de Piracicaba, sob a direção de Hélio Manfrinato, Olênio Veiga e Egildo Pereira Rizzi.
Olênio Veiga
A Orquestra de Piracicaba – chamêmo-la assim, em uma síntese de suas diversas denominações e na caracterização de sua existência como um patrimônio da cidade – tem mais de um século de existência, marcados por vicissitudes e êxitos, em que não faltou a dedicação de seus músicos, entre eles Olênio Veiga, que dela participou de 1928 a 1997, e de professores da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, como Eduardo Augusto Salgado, Alcides Guidetti Zagatto e Jaime Rocha de Almeida – para só mencionar os falecidos – assinalando o vínculo indelével dos agrônomos com a cultura piracicabana. Chega a Orquestra aos dias atuais (sob a regência de Egildo Pereira Rizzi, a partir de 15 de outubro de 1997) norteada pelos fundamentos que lhe são próprios desde o início, tendo promovido, nos últimos anos, espetáculos magníficos destinados à divulgação da música erudita, ao resgate da obra de autores nacionais e à valorização da cultura popular, de que foram exemplos, a partir de 1996, o Concerto da Cidade de Piracicaba e os espetáculos Alvorada de Lírios (comemorativo do centenário de nascimento de Erotides de Campos), Lendas do Brasil (comemorativo dos 500 anos do descobrimento do Brasil e do centenário da Orquestra) e Terra da Viola, em que se uniram, pela primeira vez, a espontaneidade da música caipira e a elaboração técnica da música sinfônica. Hélio Manfrinatto
FABIANO LOZANO
Músico, compositor, intelectual, pessoa a quebrar os alguns dos muitos tabus sociais que cercavam famílias e jovens ao início do século XX. Fabiano Lozano nasceu na Espanha, em 1884, e chegou ao Brasil aos 13 anos, vindo a residir em Piracicaba. Diplomado aos 19 anos, retornou a seu país, onde aperfeiçoou-se em piano, harmonia, regência, no Conservatório de Música e Declamação de Madri. E, de volta ao Brasil, passou a dedicar-se ao ensino como professor primário, a partir de Piracicaba. Não se tratava, entretanto, de um artista comum. Em torno de si, Fabiano Lozano, como professor do Colégio Piracicabano, reunia jovens , intelectuais. Muitos são os relatos dos saraus que promovia, numa atmosfera onde a música era ponto central. Com esse perfil, não foi difícil que uma de suas alunas por ele se apaixonasse: trava-se da filha de uma família de imigrantes norte-americanos de Santa Bárbara D'Oeste. E, ao casar-se com Dora Pyles, o músico espanhol também quebrava outro tabu: tratava-se do primeiro casamento na colônia dos americanos com alguém que não fosse do próprio grupo.
Quando, em 1914, a Escola Complementar transformou-se em Escola Normal, Fabiano assumiu a cadeira de música e iniciou o Orfeão Normalista, apontado por muitos como o primeiro esforço de movimento coral articulado em uma escola. E sua trajetória foi cada vez mais rápida e ascendente: fundou em 1915 a Orquestra Lozano e, no Colégio Piracicabano, passou a oferecer um curso de piano em dez etapas. Lozano também foi o criador do Orfeão Piracicabano (Na foto, à frente do Orfeão Piracicabano, o primeiro do Brasil), para aproveitar vozes privilegiadas que ele encontrara na cidade. Queria, ele, um grupo mais estável que o Orfeão Normalista, cuja mudança de componentes era freqüente, em função do rápido período escolar de seus cantores. Mas, para Piracicaba, o fato mais significativo daquele espanhol que encantava a todos foi sua responsabilidade na criação da Sociedade da Cultura Artística. Foi em sua casa, em 25 de maio de 1925, que uma reunião preparatória deu início ao movimento. Seu primeiro presidente foi Antonio dos Santos Veiga e, a partir de então, concertos se sucederam em Piracicaba, transformando a cidade do interior em ponto convergente de grandes artistas do país, como Magdalena Tagliaferro - que em 1951 tocou justamente em homenagem a Fabiano Lozano - Guiomar Novaes, Bidu Sayão, Camargo Guarnieri, Anna Stella Schic, Iara Bernete. Os três primeiros concertos tiveram, entretanto, a presença de Fabiano Lozano: todos foram dados pelo Orfeão Piracicabano a quem Mário de Andrade, em 1928, assim se referiu: " é o primeiro coro artístico do Brasil. Não é o primeiro em data, mas o primeiro em valor. O Prof. Lozano é animador admirável dessa moçada piracicabana. A ele cabe o mérito indelével dos primeiros prazeres corais que o Brasil pode criar". Muitos foram os jornais da época que registraram a ovação dedicada ao grupo, quando de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, o que pode incrementar ainda mais a luta desenvolvida por seu maestro em favor do canto orfeônico em todo o país. Tornando-se cada vez mais conhecido por suas composições e arranjos, Lozano respondeu pela chefia do Serviço de Música e Canto Coral do Departamento do Estado de São Paulo. E foi mais além: convidado, transferiu-se para Pernambuco, onde orientou o ensino de música e canto coral nas escolas públicas de todo o Estado. Só foi aposentar-se depois de 45 anos de atividades junto ao magistério paulista, depois de ter formado também o Orfeão do Professorado Paulista . Deixou muitas obras, inclusive dirigidas ao ensino da música no ensino básico e médio, assim como várias publicações específicas para canto orfeônico, sempre priorizando a educação musical das crianças.
A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, outra debutante do início do século XX em Piracicaba também não deixou de contribuir para o movimento musical. Pelas suas fileiras passaram os seguintes agrônomos, a quem temos de agradecer a colaboração de terem, além de profissionais da terra, terem abraçado seus sonoros instrumentos. Entre o período de 1906 a 1995 estes foram as pessoas que atuaram: Alberto Seccarelli, Alcides Guidetti Zagatto, Antonio Cobra Neto, Eduardo Augusto Salgado, Evandro Almeida, Franz Filipe Cury Usberti, Frederico Zink, Hélio Almeida Manfrinato, Jaime Rocha de Almeida, José Alfredo Usberti Filho, José Vizioli, Justo Moretti Filho, Mário Romanelli, Osires Tolaine, Roberto Usberti, Ronald Castellari, Vinicius Cotrim do Nascimento e Warwick Manfrinatto.
1992 Coral Luiz de Queiróz É composto de aproximadamente 45 pessoas, entre alunos de graduação, pós graduação, professores, funcionários do campus e dependentes, além de algumas pessoas da comunidade piracicabana. Regência de Nelson Norberto de Sousa Vieira Sobrinho Formado pela Faculdade de Música da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Fez o curso clássico de piano no Conservatório Musical de Campinas e aperfeiçoamento com o pianista Eduardo Martins em São Paulo. Foi aluno de Liana Amarante, com quem educou a voz. É barítono e fez o curso de canto lírico também no Conservatório Musical de Campinas. Está há 3 anos trabalhando como Regente do Coral Luiz de Queiróz.
Orquestra Piracicabana de Amadores Recém criada Orquestra, com aproximadamente 25 músicos, muitos de renome da cidade ex-integrantes da Orquestra Fabiano Losano (década de 30), Orquestra Piracicabana (década de 60) e Orquestra Rizzi (década de 50), mesclada com jovens músicos. Hélio de Almeida Manfrinato foi aluno de violino do maestro Germano Benencase até 1941. Participou da Orquestra Piracicabana, como 2 violino, sob regência do maestreo Benedito Dutra. Com a vinda do maestro van Den Branden a Piracicaba, e a seu convite, passou à viola da mesma orquestra. Com o mesmo instgrumento colaborou com na sinfônica da Escola de Música de Piracicaba, sob a regência do maestro Ernest Mahale. Foi regente do Coal Willian Koger da Igreja Metodista de Piracicaba por mais de 30 anos. Participou em 1980, juntamente com Zilmar Marcos e João Barbosa Duarte, na formação do Coral Luiz de Queiróz, sendo seu regente até 1983. Atualmente é regente da Orquestra Piracicabana de Amadores.
Os mais sinceros agradecimentos ao
Maestro Egildo Pereira Rizzi Eng. Agron. José Carlos de Moura Orquestra Sinfônica de Piracicaba
Bibliografia:
Revista da Cultura Artística Folders cedidos por Rodolfo Renzi