quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Frei Paulo Maria de Sorocaba


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“Escrevo somente para mostrar a
grande misericórdia de Deus para
comigo, pobre pecador”.
Frei Paulo


Desde menino eu sentia atração para São Francisco de Assis. Meu pai contava algo a respeito dos capuchinhos do seminário de São Paulo, os quais eram capelães do Convento de Santa Clara, em Sorocaba. Desejava ser frade. Diziam-me, porém que brasileiro não podia: era proibido por lei do Império (lei feita mas não aprovada). Como eu gostasse de desenhos, os amigos de meu pai queriam mandar-me estudar na Europa; meu pai permitia de boa vontade, minha mãe era um pouco contrária. Eu, sempre fraco, adoentado, medroso e acanhado, não tinha muita vontade. Mas Deus Nosso Senhor me preservou dos perigos que poderia encontrar na escola de desenho, pintura, etc. Ele me guardava para ser filho de São Francisco, seu querido imitador.
Continuava desenhando, com 14 anos entrei a trabalhar com meu tio materno, pintor de casas, ficando com ele até 1888, quando comecei a trabalhar por conta própria. Em 1891 comecei a aprender fotografia, no que trabalhei o8 anos. Interrompi o serviço por certo tempo e depois reiniciei, mas já sem gosto, ainda mais que neste tempo minha querida mãe faleceu. A família foi indo: o pai viúvo, o irmão mais velho casado, o mais moço estudando música.

Em 30 de outubro de 1899 faleceu meu pai. Como eu estava noite e dia à sua cabeceira, nesse mesmo dia resolvi entrar no convento. Após trabalhos e todas as dificuldades que se podem imaginar- sempre porém com esperança de conseguir- a 25 de dezembro desse mesmo ano fui a São Paulo, ao convento de São Francisco, onde me atendeu Frei Vicente de San Giácomo, que chamou o Superior, frei Bernardino de Lavalle. Como achasse que eu não suportaria o rigor da Ordem, aconselhou-me a it ter com os Salesianos ou Jesuítas. Nós, para irmãos, já temos muitos, disse. E para estudar, só sendo menino. (Ele pensava que eu tinha vontade de ser irmão leigo, sendo já minha idade longa).
Oh! Que decepção. Voltei a Sorocaba triste, mas sempre com esperança. Neste tempo começou em Sorocaba a epidemia de febre amarela, da qual fui vítima, ficando muito mal. O confessor que chamei disse-me, entretanto, que eu não morreria, pois ainda havia de ser religioso capuchinho. Tendo sarado, lembrei-me de escrever ao cônego Lessa, que já havia anos residia em São Paulo e era amigo de nossa família. Depois de ter falado com Frei Bernardino de Lavalle, escreveu-me o cônego, fazendo-me ver os deveres do irmão capuchinho: cozinhar, lavar, varrer, etc. se eu queria sujeitar-me, podia vir e experimentar se agüentaria.
Respondi que com a graça de Deus, estava pronto para tudo. Ah! Como senti o coração bater forte de contentamento. Chegado o dia da partida, meu irmão casado me acompanhou até a estação, abraçamo-nos e pronto.
Em São Paulo o Cônego levou-me à Igreja de São Francisco da Ordem Terceira. Era o dia 2 de agosto de 1900 e conduziu-me à Igreja de Santo Antônio para lucrar a indulgência de Porciúncila. No convento de São Francisco o Pe. Bernardino de Lavelle mostrou-se contentíssimo. Lembrei-me do que ele dissera em dezembro – é melhor ir com os jesuítas- e então me veio à mente que em pequeno, meu pai era alfaiate, fazia batinas para coroinhas e eu servia de manequim. Minha mãe olhava e dizia: Parece jesuíta. Magro como santo de roça, que é só rosto mãos e o mais sarrafos...
Dia 6 o frei Bernardino me levou a Piracicaba, aonde chegamos à tarde. Depois do jantar fui entregue ao Padre Mestre de Noviços, frei Felix de Lavalle. Já no dia 7 comecei a ajudar na cozinha, lavar, serrar lenha, etc, e assistir conferências do Pe. Mestre.
Dia 11, cerca de 4.30 da tarde, foi a vestição, quando deixei o João Batista de Melo para receber o frei Paulo M. de Sorocaba. Era vigília de Sta. Clara. -Então frei Paulo, vamos experimentar? Você acostumará? Oh! Se Deus quiser, com Sua Santa Graça, havemos de perseverar. Irmãos, parentes, conhecidos e colegas: adeus.

Frei Paulo M. de Sorocaba


Década de 1870: Sorocaba está em plena explosão de civilização. Começara a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, que trouxe consigo muita gente culta, comerciantes e artesões. Possuía já nesta época o teatro São Raphael (fundado em 1844), jornais, bandas de música, orquestra, e a população tinha oportunidade de assistir espetáculos com artistas famosos, companhias líricas e similares. O teatro também era utilizado pelas famílias abastadas em suas reuniões festivas.
João Batista Dimas de Melo (Frei Paulo Maria de Sorocaba) nasceu em 24 de junho de 1873 em Sorocaba na Rua da Santa Cruz da Composição, em plena noite de São João. Filho de Pedro Rodrigues de Melo e Frutuosa da Rocha Pinto, descendentes de índios do Rio Grande do Sul. Apesar de pessoas humildes e piedosas, souberam educá-los santamente. Seu pai era alfaiate, confeccionando batinas para coroinhas e também músico, fundador da Banda de Música Sete de Setembro (de Sorocaba) e provavelmente ensinou-lhe os rudimentos musicais, que depois foram desenvolvidos.
Era o terceiro filho do casal com nove filhos, cinco dos quais deixaram a existência na infância: Joaquim, Antonio Demétrio, João Evangelista, Antonio Leocádio, Maria Germano e Antonio Mateus. José Raimundo faleceu em 9 de agosto de 1908, o penúltimo, Francisco Dimas de Melo, pintor profissional, regente da Banda de Música Santa Cecília (de Sorocaba) faleceu em 31 de agosto de 1936 vítima de queda de escada quando trabalhava na pintura da Santa Casa.
Seu avô materno, José do Pinho, foi exímio armador de presépios, executando as próprias peças que necessitava. Torna-se óbvio que este fato deve ter exercido atração sobre o menor, em plena fase de desenvolvimento.
As primeiras noções de desenho, quem as transmitiu por volta de 1885 foi um engenheiro que lhe ensinou os traçados geométricos a mão livre. Seu nome seria Esmiel (o nome inteiro foi perdido). No ano seguinte, recebeu aulas de Antonio José da Rosa, ourives, desenhista, entalhador e músico. Recebeu aulas de desenho a “crayon”, aprendendo a desenhar figuras, retratos, gravuras litografadas.
Quando este mestre mudou-se de Sorocaba, os admiradores das qualidades artísticas do menino, pessoas de posse e amigas de sua família quiseram mandá-lo estudar na Europa, mas a sua timidez e falta de coragem em afastar-se do lar contribuíram significativamente na recusa da oferta.
João Batista começou aos nove anos a aprender violino com Salustiano Zeferino de Santana, estudando no próprio instrumento do pai e que conservou até sua morte. Deveria tocar bem, visto que quatro anos após, durante a visita de uma companhia lírica espanhola, havia sido convidado para ser o primeiro violinista, o que declinou por timidez.
Em 30 de outubro de 1899 seu pai vem a falecer. Fica extremamente abalado com o fato e é neste tempo que tenta pela primeira vez adentrar à Ordem Franciscana dos Frades Capuchinhos.
Em sua primeira tentativa de adentrar à Ordem, foi desestimulado, retornando novamente a Sorocaba. Nesta fase, vem adoecer seriamente de febre amarela. Quando fazia a recomenda do corpo, o religioso que o atendia estimulou-o, dizendo que não iria morrer.
Depois de curado, parte novamente em agosto de 1900 para São Paulo, decidido mais do que nunca a cumprir seu objetivo. Frei Bernardino de Lavalle o enviou à Piracicaba no convento do Sagrado Coração de Jesus, onde permaneceu alguns dias observando a vida capuchinha. No dia 9 de agosto fez a vestição.
O irmão, que havia iniciado o noviciado em 1900, recebeu o hábito em Piracicaba e adotou o nome de Frei Paulo Maria de Sorocaba. Como não tivesse feito os estudos clericais, era um simples irmão leigo. Foi enviado à Taubaté, onde exerceu as atividades de porteiro, cozinheiro e sacristão. Nas horas vagas é que estudava violino e harmonia musical.
Antes de partir para a Itália, entre 1903 a 1906 foi mandado para o interior do sul de São Paulo a fim de catequizar indígenas e formar povoados de Campos Novos de Paranapanema.
Voltou doente destas obrigações, tendo permanecido em São Paulo para tratar-se.
Em 1912 parte para a Europa, especificamente Itália, onde permanece por um ano. Neste tempo aperfeiçoa seus conhecimentos sobre pintura. Foram seus professores Camile Bernard da Academia de Mônaco e Antonio Meyer, pintor da escola veneziana nascido em Mori, sul do Tirol (1862-1921), discípulo de grandes pintores da época e restaurador de quadros clássicos.
Retornando por volta de 1913-1914 para Piracicaba, onde permanece até 1924, pintou os afrescos no Convento do Sagrado Coração de Jesus. Nas capelas laterais e no altar mor pintou “Os doze apóstolos”.
Depois disto, esteve em Botucatu e Santos, retornando a Piracicaba ao Seminário São Fidelis. Nesta segunda fase pintou 6 grandes painéis: "São Fidelis pregando”, São Fidelis defendendo tese", "Martírio de São Fidelis", “São Fidelis vestindo hábito de Capuchinhos”, “Glória de São Fidelis” e “São Fidelis menino”.











São Fidelis, antes de ser frade, chamava-se Marcos Roy, filho de João Roy e Genoveva Roy. O primeiro quadro representa o menino Marcos Roy dando lição ao padre doutor Jonas Weias, beneditino, juntamente com o padre Filipe Reach, também beneditino. Isto somente é uma amostra como a análise de pinturas pode mostrar-se difícil.









Após 3 anos de estudo, concluiu sua mais importante obra, “Santa Ceia”, que se acha em Mococa, no Convento de São José.
Em 1924 estava em Botucatu para pintar o altar de Santa Teresinha. Em 1925 ou 1926 estava em Santos.
Suas obras brotavam dos mais diversos meios: terracota, pinturas a óleo, crayon, bico de pena, carvão. Há obras mecânicas como meridianos ou relógios solares. Desenhou as fases da último eclipse que assistiu.
Suas pinturas possuem traços de pintura acadêmica, mas com certo grau de ingenuidade. Seus murais encantam pela espontaneidade da expressão, não só dos desenhos bem como das cores da composição. Relacionar seu legado artístico torna-se difícil, em virtude do grande número de pinturas, de murais e outras obras que executou nos mais diversos locais.
Comentando a respeito da Av. Independência, na altura do Seminário Seráfico São Fidelis, o cronista de um jornal na década de 1940 observa sobre o grande número de crianças com pranchetas de desenho e material de pintura que se observava
”Cadinho de obras finíssimas, crisol de belezas, refúgio de paz, de trabalho fecundo, de aperfeiçoamento moral, o atelier de Frei Paulo é bem um viveiro de artistas que Piracicaba muito deve”.
Algumas pessoas consideram Frei Paulo de Sorocaba um pintor clássico com traços primitivistas, enquanto outros o consideram como possuidor de um realismo ascético, influência de seu espírito ascético e místico. Segundo um crítico, apenas um de seus discípulos, João Adâmoli (1911-1980) absorveria dele este conteúdo, aplicando-o à paisagem e levando esta a despir-se progressivamente de seus elementos secundários, até exibir sua essência formal, no limite entre a impressão e expressão, no tênue limiar entre a forma e a abstração.
Frei Paulo foi agraciado com o primeiro lugar no II Salão de Belas Artes de Piracicaba.
Frei Paulo tinha uma personalidade toda especial. Ensinava com bondade. Nunca dizia não a quem quer que fosse. Nunca desanimava quem quisesse aprender. Estimulava a todos, mesmo aqueles que a natureza havia negado o dom da arte.
Jamais teve alunos, sempre teve discípulos, seguidores convictos. Talvez nem todos saíssem pintores, mas saíram homens de bem, tocados pelo sentimento puro da bondade. Outros, a exemplo do mestre, se fizeram sacerdotes, como Frei Damião e os irmãos Mutschelle.
Suas obras não conheciam os tons audaciosos da inovação das escolas abstrusas, com cores violentas e composição chocante (na época). Em sua obra há uma suavidade intensa, que atrai e comove. Não era somente o espírito contemplativo que transmitia em suas pinturas, mas havia “um que” de curiosidade polimorfa associada.
Existe um disparate existencial em sua pessoa. Sempre foi colocado como uma pessoa frágil, doentia, mas longevo de 82 anos. Deus esteve ao seu lado, ao lado de um homem que aliava as virtudes de um santo e as qualidades maravilhosas de artista e mestre, que deixava apaixonado seus discípulos e seguidores fervorosos, que nunca cessaram de venerá-lo. Entre estes nomes poderíamos lembrar o de Eugênio Nardin, Angelino Stella, Ângelo P. Sega, Manoel Rodrigues Lourenço, Manoel Martho, João Adâmoli e outros, (que me desculpem a não referência de todos os muitos outros pelo puro pecado do desconhecimento).
Frei Paulo Maria de Sorocaba faleceu em Piracicaba na tarde de 11 de julho. De seus 82 anos e 17 dias de vida, passou 54 anos e 11 meses na Ordem Capuchinha.



Em 23 de fevereiro de 1954 foi realizada a Exposição comemorativa ao Frei Paulo na Pinacoteca Municipal. Nada mais que uma singela e justa homenagem a um frei leigo, que graças ao seu desejo incansável, consiguiu atingir pontos que pouquíssimos conseguem.
Com sua simplicidade, sua doação, oconseguiu fazer oficiosamente uma escola de pintores em Piracicaba. Desta escola nasceram nomes que elevaram o nome de nossa cidade além dos simples muros que a cercam, e elas espalharam-se não apenas por São Paulo, mas por todo o Brasil, e inclusive cruzaram fronteiras atingindo outros paizes.
Na histórica última foto, temos da direita para a esquerda os senhores Benedito Evangelista Costa, Archimedes Dutra, Monsenhor José Nardin, pintor Angelino Stella, Eugênio Nardin, vice prefeito Américo Perissinoto, Álvaro Sega, Antonio Pacheco Ferraz, Hélio e Elias Rodrigues Conceição.
Meus mais sinceros agradecimentos à Seminário Seráfico São Fidelis de Piracicaba, frei Sermo e à sua bibliotecária Araci Lopes pelo material disponibilizado; aos Frades Capuchinhos de Piracicaba na pessoa do frei Saul pelos depoimentos, ao Sr. Lauro Stipp que gentilmente apoiou a realização destas linhas, fornecendo o material necesário para que ela se tornasse uma realidade, e por último o Sr. Fabio Monteiro, que tem cedido parte de seu horário da Rádio Educativa para divulgação dos fatos que constituem-se nas raízes de Piracicaba.

3 comentários:

Brother Emerson disse...

Obrigado por colocar on line esse artigo onde se pode conhecer a figura do Frei Paulo Maria de Sorocaba, frade capuchinho... Que Deus te abencoe

Frei Emerson Rodrigues

Brother Emerson disse...

obrigado por honrar a memoria de Frei Paulo Maria de Sorocaba com esse artigo. Que Deus te abencoe.

Frei Emerson Rodrigues

Valter Ortega disse...

Em 1952/1953, eu com 10/11 anos,aluno do Colégio Dom Bosco,cursando o "Admissão para Ginásio", e no periodo da tarde, junto com meu primo(hoje)Prof.Dr. Rutênio José Latanze=Jaboticabal-sp.fomos alunos de desenho de FREI PAULO MARIA DE SOROCABA, oque me emociona e enche de orgulho e respeito por essa figura religiosa, aqui, em memória, agradeço também aos meus pais por essa oportuni