quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Frei Paulo Maria de Sorocaba


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“Escrevo somente para mostrar a
grande misericórdia de Deus para
comigo, pobre pecador”.
Frei Paulo


Desde menino eu sentia atração para São Francisco de Assis. Meu pai contava algo a respeito dos capuchinhos do seminário de São Paulo, os quais eram capelães do Convento de Santa Clara, em Sorocaba. Desejava ser frade. Diziam-me, porém que brasileiro não podia: era proibido por lei do Império (lei feita mas não aprovada). Como eu gostasse de desenhos, os amigos de meu pai queriam mandar-me estudar na Europa; meu pai permitia de boa vontade, minha mãe era um pouco contrária. Eu, sempre fraco, adoentado, medroso e acanhado, não tinha muita vontade. Mas Deus Nosso Senhor me preservou dos perigos que poderia encontrar na escola de desenho, pintura, etc. Ele me guardava para ser filho de São Francisco, seu querido imitador.
Continuava desenhando, com 14 anos entrei a trabalhar com meu tio materno, pintor de casas, ficando com ele até 1888, quando comecei a trabalhar por conta própria. Em 1891 comecei a aprender fotografia, no que trabalhei o8 anos. Interrompi o serviço por certo tempo e depois reiniciei, mas já sem gosto, ainda mais que neste tempo minha querida mãe faleceu. A família foi indo: o pai viúvo, o irmão mais velho casado, o mais moço estudando música.

Em 30 de outubro de 1899 faleceu meu pai. Como eu estava noite e dia à sua cabeceira, nesse mesmo dia resolvi entrar no convento. Após trabalhos e todas as dificuldades que se podem imaginar- sempre porém com esperança de conseguir- a 25 de dezembro desse mesmo ano fui a São Paulo, ao convento de São Francisco, onde me atendeu Frei Vicente de San Giácomo, que chamou o Superior, frei Bernardino de Lavalle. Como achasse que eu não suportaria o rigor da Ordem, aconselhou-me a it ter com os Salesianos ou Jesuítas. Nós, para irmãos, já temos muitos, disse. E para estudar, só sendo menino. (Ele pensava que eu tinha vontade de ser irmão leigo, sendo já minha idade longa).
Oh! Que decepção. Voltei a Sorocaba triste, mas sempre com esperança. Neste tempo começou em Sorocaba a epidemia de febre amarela, da qual fui vítima, ficando muito mal. O confessor que chamei disse-me, entretanto, que eu não morreria, pois ainda havia de ser religioso capuchinho. Tendo sarado, lembrei-me de escrever ao cônego Lessa, que já havia anos residia em São Paulo e era amigo de nossa família. Depois de ter falado com Frei Bernardino de Lavalle, escreveu-me o cônego, fazendo-me ver os deveres do irmão capuchinho: cozinhar, lavar, varrer, etc. se eu queria sujeitar-me, podia vir e experimentar se agüentaria.
Respondi que com a graça de Deus, estava pronto para tudo. Ah! Como senti o coração bater forte de contentamento. Chegado o dia da partida, meu irmão casado me acompanhou até a estação, abraçamo-nos e pronto.
Em São Paulo o Cônego levou-me à Igreja de São Francisco da Ordem Terceira. Era o dia 2 de agosto de 1900 e conduziu-me à Igreja de Santo Antônio para lucrar a indulgência de Porciúncila. No convento de São Francisco o Pe. Bernardino de Lavelle mostrou-se contentíssimo. Lembrei-me do que ele dissera em dezembro – é melhor ir com os jesuítas- e então me veio à mente que em pequeno, meu pai era alfaiate, fazia batinas para coroinhas e eu servia de manequim. Minha mãe olhava e dizia: Parece jesuíta. Magro como santo de roça, que é só rosto mãos e o mais sarrafos...
Dia 6 o frei Bernardino me levou a Piracicaba, aonde chegamos à tarde. Depois do jantar fui entregue ao Padre Mestre de Noviços, frei Felix de Lavalle. Já no dia 7 comecei a ajudar na cozinha, lavar, serrar lenha, etc, e assistir conferências do Pe. Mestre.
Dia 11, cerca de 4.30 da tarde, foi a vestição, quando deixei o João Batista de Melo para receber o frei Paulo M. de Sorocaba. Era vigília de Sta. Clara. -Então frei Paulo, vamos experimentar? Você acostumará? Oh! Se Deus quiser, com Sua Santa Graça, havemos de perseverar. Irmãos, parentes, conhecidos e colegas: adeus.

Frei Paulo M. de Sorocaba


Década de 1870: Sorocaba está em plena explosão de civilização. Começara a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, que trouxe consigo muita gente culta, comerciantes e artesões. Possuía já nesta época o teatro São Raphael (fundado em 1844), jornais, bandas de música, orquestra, e a população tinha oportunidade de assistir espetáculos com artistas famosos, companhias líricas e similares. O teatro também era utilizado pelas famílias abastadas em suas reuniões festivas.
João Batista Dimas de Melo (Frei Paulo Maria de Sorocaba) nasceu em 24 de junho de 1873 em Sorocaba na Rua da Santa Cruz da Composição, em plena noite de São João. Filho de Pedro Rodrigues de Melo e Frutuosa da Rocha Pinto, descendentes de índios do Rio Grande do Sul. Apesar de pessoas humildes e piedosas, souberam educá-los santamente. Seu pai era alfaiate, confeccionando batinas para coroinhas e também músico, fundador da Banda de Música Sete de Setembro (de Sorocaba) e provavelmente ensinou-lhe os rudimentos musicais, que depois foram desenvolvidos.
Era o terceiro filho do casal com nove filhos, cinco dos quais deixaram a existência na infância: Joaquim, Antonio Demétrio, João Evangelista, Antonio Leocádio, Maria Germano e Antonio Mateus. José Raimundo faleceu em 9 de agosto de 1908, o penúltimo, Francisco Dimas de Melo, pintor profissional, regente da Banda de Música Santa Cecília (de Sorocaba) faleceu em 31 de agosto de 1936 vítima de queda de escada quando trabalhava na pintura da Santa Casa.
Seu avô materno, José do Pinho, foi exímio armador de presépios, executando as próprias peças que necessitava. Torna-se óbvio que este fato deve ter exercido atração sobre o menor, em plena fase de desenvolvimento.
As primeiras noções de desenho, quem as transmitiu por volta de 1885 foi um engenheiro que lhe ensinou os traçados geométricos a mão livre. Seu nome seria Esmiel (o nome inteiro foi perdido). No ano seguinte, recebeu aulas de Antonio José da Rosa, ourives, desenhista, entalhador e músico. Recebeu aulas de desenho a “crayon”, aprendendo a desenhar figuras, retratos, gravuras litografadas.
Quando este mestre mudou-se de Sorocaba, os admiradores das qualidades artísticas do menino, pessoas de posse e amigas de sua família quiseram mandá-lo estudar na Europa, mas a sua timidez e falta de coragem em afastar-se do lar contribuíram significativamente na recusa da oferta.
João Batista começou aos nove anos a aprender violino com Salustiano Zeferino de Santana, estudando no próprio instrumento do pai e que conservou até sua morte. Deveria tocar bem, visto que quatro anos após, durante a visita de uma companhia lírica espanhola, havia sido convidado para ser o primeiro violinista, o que declinou por timidez.
Em 30 de outubro de 1899 seu pai vem a falecer. Fica extremamente abalado com o fato e é neste tempo que tenta pela primeira vez adentrar à Ordem Franciscana dos Frades Capuchinhos.
Em sua primeira tentativa de adentrar à Ordem, foi desestimulado, retornando novamente a Sorocaba. Nesta fase, vem adoecer seriamente de febre amarela. Quando fazia a recomenda do corpo, o religioso que o atendia estimulou-o, dizendo que não iria morrer.
Depois de curado, parte novamente em agosto de 1900 para São Paulo, decidido mais do que nunca a cumprir seu objetivo. Frei Bernardino de Lavalle o enviou à Piracicaba no convento do Sagrado Coração de Jesus, onde permaneceu alguns dias observando a vida capuchinha. No dia 9 de agosto fez a vestição.
O irmão, que havia iniciado o noviciado em 1900, recebeu o hábito em Piracicaba e adotou o nome de Frei Paulo Maria de Sorocaba. Como não tivesse feito os estudos clericais, era um simples irmão leigo. Foi enviado à Taubaté, onde exerceu as atividades de porteiro, cozinheiro e sacristão. Nas horas vagas é que estudava violino e harmonia musical.
Antes de partir para a Itália, entre 1903 a 1906 foi mandado para o interior do sul de São Paulo a fim de catequizar indígenas e formar povoados de Campos Novos de Paranapanema.
Voltou doente destas obrigações, tendo permanecido em São Paulo para tratar-se.
Em 1912 parte para a Europa, especificamente Itália, onde permanece por um ano. Neste tempo aperfeiçoa seus conhecimentos sobre pintura. Foram seus professores Camile Bernard da Academia de Mônaco e Antonio Meyer, pintor da escola veneziana nascido em Mori, sul do Tirol (1862-1921), discípulo de grandes pintores da época e restaurador de quadros clássicos.
Retornando por volta de 1913-1914 para Piracicaba, onde permanece até 1924, pintou os afrescos no Convento do Sagrado Coração de Jesus. Nas capelas laterais e no altar mor pintou “Os doze apóstolos”.
Depois disto, esteve em Botucatu e Santos, retornando a Piracicaba ao Seminário São Fidelis. Nesta segunda fase pintou 6 grandes painéis: "São Fidelis pregando”, São Fidelis defendendo tese", "Martírio de São Fidelis", “São Fidelis vestindo hábito de Capuchinhos”, “Glória de São Fidelis” e “São Fidelis menino”.











São Fidelis, antes de ser frade, chamava-se Marcos Roy, filho de João Roy e Genoveva Roy. O primeiro quadro representa o menino Marcos Roy dando lição ao padre doutor Jonas Weias, beneditino, juntamente com o padre Filipe Reach, também beneditino. Isto somente é uma amostra como a análise de pinturas pode mostrar-se difícil.









Após 3 anos de estudo, concluiu sua mais importante obra, “Santa Ceia”, que se acha em Mococa, no Convento de São José.
Em 1924 estava em Botucatu para pintar o altar de Santa Teresinha. Em 1925 ou 1926 estava em Santos.
Suas obras brotavam dos mais diversos meios: terracota, pinturas a óleo, crayon, bico de pena, carvão. Há obras mecânicas como meridianos ou relógios solares. Desenhou as fases da último eclipse que assistiu.
Suas pinturas possuem traços de pintura acadêmica, mas com certo grau de ingenuidade. Seus murais encantam pela espontaneidade da expressão, não só dos desenhos bem como das cores da composição. Relacionar seu legado artístico torna-se difícil, em virtude do grande número de pinturas, de murais e outras obras que executou nos mais diversos locais.
Comentando a respeito da Av. Independência, na altura do Seminário Seráfico São Fidelis, o cronista de um jornal na década de 1940 observa sobre o grande número de crianças com pranchetas de desenho e material de pintura que se observava
”Cadinho de obras finíssimas, crisol de belezas, refúgio de paz, de trabalho fecundo, de aperfeiçoamento moral, o atelier de Frei Paulo é bem um viveiro de artistas que Piracicaba muito deve”.
Algumas pessoas consideram Frei Paulo de Sorocaba um pintor clássico com traços primitivistas, enquanto outros o consideram como possuidor de um realismo ascético, influência de seu espírito ascético e místico. Segundo um crítico, apenas um de seus discípulos, João Adâmoli (1911-1980) absorveria dele este conteúdo, aplicando-o à paisagem e levando esta a despir-se progressivamente de seus elementos secundários, até exibir sua essência formal, no limite entre a impressão e expressão, no tênue limiar entre a forma e a abstração.
Frei Paulo foi agraciado com o primeiro lugar no II Salão de Belas Artes de Piracicaba.
Frei Paulo tinha uma personalidade toda especial. Ensinava com bondade. Nunca dizia não a quem quer que fosse. Nunca desanimava quem quisesse aprender. Estimulava a todos, mesmo aqueles que a natureza havia negado o dom da arte.
Jamais teve alunos, sempre teve discípulos, seguidores convictos. Talvez nem todos saíssem pintores, mas saíram homens de bem, tocados pelo sentimento puro da bondade. Outros, a exemplo do mestre, se fizeram sacerdotes, como Frei Damião e os irmãos Mutschelle.
Suas obras não conheciam os tons audaciosos da inovação das escolas abstrusas, com cores violentas e composição chocante (na época). Em sua obra há uma suavidade intensa, que atrai e comove. Não era somente o espírito contemplativo que transmitia em suas pinturas, mas havia “um que” de curiosidade polimorfa associada.
Existe um disparate existencial em sua pessoa. Sempre foi colocado como uma pessoa frágil, doentia, mas longevo de 82 anos. Deus esteve ao seu lado, ao lado de um homem que aliava as virtudes de um santo e as qualidades maravilhosas de artista e mestre, que deixava apaixonado seus discípulos e seguidores fervorosos, que nunca cessaram de venerá-lo. Entre estes nomes poderíamos lembrar o de Eugênio Nardin, Angelino Stella, Ângelo P. Sega, Manoel Rodrigues Lourenço, Manoel Martho, João Adâmoli e outros, (que me desculpem a não referência de todos os muitos outros pelo puro pecado do desconhecimento).
Frei Paulo Maria de Sorocaba faleceu em Piracicaba na tarde de 11 de julho. De seus 82 anos e 17 dias de vida, passou 54 anos e 11 meses na Ordem Capuchinha.



Em 23 de fevereiro de 1954 foi realizada a Exposição comemorativa ao Frei Paulo na Pinacoteca Municipal. Nada mais que uma singela e justa homenagem a um frei leigo, que graças ao seu desejo incansável, consiguiu atingir pontos que pouquíssimos conseguem.
Com sua simplicidade, sua doação, oconseguiu fazer oficiosamente uma escola de pintores em Piracicaba. Desta escola nasceram nomes que elevaram o nome de nossa cidade além dos simples muros que a cercam, e elas espalharam-se não apenas por São Paulo, mas por todo o Brasil, e inclusive cruzaram fronteiras atingindo outros paizes.
Na histórica última foto, temos da direita para a esquerda os senhores Benedito Evangelista Costa, Archimedes Dutra, Monsenhor José Nardin, pintor Angelino Stella, Eugênio Nardin, vice prefeito Américo Perissinoto, Álvaro Sega, Antonio Pacheco Ferraz, Hélio e Elias Rodrigues Conceição.
Meus mais sinceros agradecimentos à Seminário Seráfico São Fidelis de Piracicaba, frei Sermo e à sua bibliotecária Araci Lopes pelo material disponibilizado; aos Frades Capuchinhos de Piracicaba na pessoa do frei Saul pelos depoimentos, ao Sr. Lauro Stipp que gentilmente apoiou a realização destas linhas, fornecendo o material necesário para que ela se tornasse uma realidade, e por último o Sr. Fabio Monteiro, que tem cedido parte de seu horário da Rádio Educativa para divulgação dos fatos que constituem-se nas raízes de Piracicaba.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ORQUESTRA SINFÔNICA DE PIRACICABA


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Piracicaba desde sua mais tenra idade, sempre foi uma cidade extremamente bem agraciada. E um destes foi o dom divino da música. Já no final do século XIX constava nesta cidade 50 residências com pianos. Podemos avaliar sua capacidade pelos anúncios de jornal, como este, retirado da "Gazeta de Piracicaba de 1882.















Piracicaba possuía uma Orquestra Sinfônica ainda no século XIX. Lazaro Lozano foi seu primeiro regente e a primeira apresentação pública ocorreu em 24 de março de 1900 na matriz de Santo Antonio.









Fabiano, irmão de Lázaro Lozano, era espanhol, nascido em 1865, professor de música, compositor, poeta e maestro. Em 1913 Fabiano fundou a “Orchestra do Theatro Cinema de Piracicaba”, que já estava estruturada em Piracicaba e era conhecida como “Orchestra de Fabiano Lozano” ou “Orchestra Lozano”. Dela participavam elementos como Erotides de Campos, Belmácio de Pousa Godinho, Benedito Dutra Teixeira.
A primeira apresentação pública deu-se na Universidade Popular de Piracicaba no dia 12 de outubro de 1914, onde atualmente está a sede central do C.C.R. Cristóvão Colombo, na Rua Governador Pedro de Toledo com a Rua Prudente de Moraes. Não devemos confundir com a antiga sede alugada do Cristovão Colombo, que era na esquina da Rua Governador com a Rua São José, em prédio de propriedade do Dr. João José Correia. Lembro-me do fato pois quando criança, cheguei a assistir neste espaço diversos tipos de apresentações, entre elas de ballet. E neste local também foi sede do referido clube.

Orchestra Losano
Identificados, da E para D: 3⁰- Erotides de Campos 4⁰- Fabiano Lozano





Detalhe da imagem anterior.




Também nas primeiras décadas do século XX viveu Carlos Brasiliense, um dos mais completos músicos de Piracicaba. Nascido em 1 de novembro de 1.894, era filho de Henrique Brasiliense e de Laura Kiehl Brasiliense. Era um autodidata que se deixou levar por uma profunda vocação musical, e todos os musicistas da época não hesitavam em chamá-lo de Maestro Carlos Brasiliense, ou moço, dizia Leandro Guerrini, “perfeito no solfejo rítmico, no solfejo tonal leitura de primeira vista, escola antiga, cheia de graça, de técnica de vivacidade.”






Melita e CarlosBrasiliense










O Maestro Carlos Brasiliense dirigiu a orquestra do Ísis Theatre, depois Politeama. Foi sua esposa Melita Brasiliense, mulher que se impôs pelo talento artístico e senso de caridade. Também foi professora de geografia no Colégio Piracicabano na década de 60. Carlos e Melita não tiveram filhos, mas adotaram algumas crianças.

Carlos Brasiliense foi o primeiro a colocar em pauta a música “Piracicaba”, de Newton de Mello, hino de nossa cidade. Também era membro da Orquestra Piracicabana. Tocava violino, rabecão, cello e viola. Faleceu em 16 de junho de 1953. Piracicaba começava a romper com seu passado. Carlos Brasiliense, ao morrer, já tinha sido esquecido.
Newton de Mello



Em 25 de maio de 1925 foi fundada também por Fabiano Losano a Sociedade de Cultura Artística.
Em 6 de junho de 1929 músicos de Piracicaba preconisam a criação da Orquestra Sinfônica de Piracicaba. Mas a idéia não criou raízes. Foi então denominada de Orquestra Piracicabana, que se filia à Sociedade de Cultura Artística.
Fazem parte desta orquestra, Regina do Lozano, musicistas como os Dutra, Leontino Ferreira de Albulquerque, e Eduardo Salgado.
Ainda em 15 de outubro de 1929 a Orchestra Piracicabana e o Orpheon Piracicabano apresentavam-se no Teatro Santo Estevão.



Maestro Losano viaja em 1931 para o nordeste, quando então assume a regência o Dutra. Mas este, logo nas metade dos anos de 40, para assumir cargo no Departamento de Cultura, em São Paulo.






Orchestra Piracicabana em 1934 Regente: Benedicto Dutra Teixeira




Em 1946 a orquestra é reorganizada pela Cultura Artística, tornando-se autônoma por solicitação do Sr. Jaime Rocha de Almeida.
Já ostentando o novo nome de Orquestra Piracicabana de Amadores, passa ser regida pelo maestro belga Edgard Von den Branden, que muda-se para Campinas algum tempo depois.









Orquestra Piracicabana de Amadores 1958 regente: Benedito Dutra Teixeira










Na década de 50, Dutra reassume a regência. Foi período de intensa atividade musical. Em 6 de janeiro de 1958 surge a Orquestra Rizzi, sob regências do Maestro Germano Benencase. Residia em Americana e era professor no Colégio Piracicabano.






Maestro Benencase





Em 1962, com o falecimento de Benedito Dutra Teixeira, a Orquestra Rizzi realiza conserto em na Società Italiana di Mútuo Soccorso em homenagem a este grande maestro. Tamém na mesma época, a Orquestra Rizzi e Piracicabana de Amadores começam a se fundir. A união oficial somente daria-se em 1965, quando adotaram o nome de Orquestrade Amadores Benedito Dutra Teixeira, sob a direção de seu filho Rossini Rolim Dutra e Egildo Pereira Rizzi.
Esta Orquestra participou, em 1967, das festividades do 2º centenário da cidade apresentando-se sob a regência de Rossini.







Egildo Rizzi

Rossini Rolim Dutra








Após este período, o interesse pela Orquestra permanece, de maneira efetiva, sob a liderança dos irmãos Rizzi – Reginaldo, Rodolfo e Egildo – aos quais se soma Hélio Manfrinato, no início dos anos 90, consolidando-se o movimento pela sua ampliação. Assim, em 1991, inicia-se nova fase na vida da Orquestra, que chega a 50 músicos e realiza vários concertos. A partir de então, Hélio Manfrinato passa a ser o regente titular. Em 1994, finalmente, o sonho dos anos 20 se concretiza e surge a Orquestra Sinfônica de Piracicaba, sob a direção de Hélio Manfrinato, Olênio Veiga e Egildo Pereira Rizzi.








Olênio Veiga

A Orquestra de Piracicaba – chamêmo-la assim, em uma síntese de suas diversas denominações e na caracterização de sua existência como um patrimônio da cidade – tem mais de um século de existência, marcados por vicissitudes e êxitos, em que não faltou a dedicação de seus músicos, entre eles Olênio Veiga, que dela participou de 1928 a 1997, e de professores da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, como Eduardo Augusto Salgado, Alcides Guidetti Zagatto e Jaime Rocha de Almeida – para só mencionar os falecidos – assinalando o vínculo indelével dos agrônomos com a cultura piracicabana.
Chega a Orquestra aos dias atuais (sob a regência de Egildo Pereira Rizzi, a partir de 15 de outubro de 1997) norteada pelos fundamentos que lhe são próprios desde o início, tendo promovido, nos últimos anos, espetáculos magníficos destinados à divulgação da música erudita, ao resgate da obra de autores nacionais e à valorização da cultura popular, de que foram exemplos, a partir de 1996, o Concerto da Cidade de Piracicaba e os espetáculos Alvorada de Lírios (comemorativo do centenário de nascimento de Erotides de Campos), Lendas do Brasil (comemorativo dos 500 anos do descobrimento do Brasil e do centenário da Orquestra) e Terra da Viola, em que se uniram, pela primeira vez, a espontaneidade da música caipira e a elaboração técnica da música sinfônica. Hélio Manfrinatto




FABIANO LOZANO

Músico, compositor, intelectual, pessoa a quebrar os alguns dos muitos tabus sociais que cercavam famílias e jovens ao início do século XX. Fabiano Lozano nasceu na Espanha, em 1884, e chegou ao Brasil aos 13 anos, vindo a residir em Piracicaba. Diplomado aos 19 anos, retornou a seu país, onde aperfeiçoou-se em piano, harmonia, regência, no Conservatório de Música e Declamação de Madri.
E, de volta ao Brasil, passou a dedicar-se ao ensino como professor primário, a partir de Piracicaba. Não se tratava, entretanto, de um artista comum. Em torno de si, Fabiano Lozano, como professor do Colégio Piracicabano, reunia jovens , intelectuais. Muitos são os relatos dos saraus que promovia, numa atmosfera onde a música era ponto central. Com esse perfil, não foi difícil que uma de suas alunas por ele se apaixonasse: trava-se da filha de uma família de imigrantes norte-americanos de Santa Bárbara D'Oeste. E, ao casar-se com Dora Pyles, o músico espanhol também quebrava outro tabu: tratava-se do primeiro casamento na colônia dos americanos com alguém que não fosse do próprio grupo.


Quando, em 1914, a Escola Complementar transformou-se em Escola Normal, Fabiano assumiu a cadeira de música e iniciou o Orfeão Normalista, apontado por muitos como o primeiro esforço de movimento coral articulado em uma escola. E sua trajetória foi cada vez mais rápida e ascendente: fundou em 1915 a Orquestra Lozano e, no Colégio Piracicabano, passou a oferecer um curso de piano em dez etapas.
Lozano também foi o criador do Orfeão Piracicabano (Na foto, à frente do Orfeão Piracicabano, o primeiro do Brasil), para aproveitar vozes privilegiadas que ele encontrara na cidade. Queria, ele, um grupo mais estável que o Orfeão Normalista, cuja mudança de componentes era freqüente, em função do rápido período escolar de seus cantores.
Mas, para Piracicaba, o fato mais significativo daquele espanhol que encantava a todos foi sua responsabilidade na criação da Sociedade da Cultura Artística. Foi em sua casa, em 25 de maio de 1925, que uma reunião preparatória deu início ao movimento. Seu primeiro presidente foi Antonio dos Santos Veiga e, a partir de então, concertos se sucederam em Piracicaba, transformando a cidade do interior em ponto convergente de grandes artistas do país, como Magdalena Tagliaferro - que em 1951 tocou justamente em homenagem a Fabiano Lozano - Guiomar Novaes, Bidu Sayão, Camargo Guarnieri, Anna Stella Schic, Iara Bernete.
Os três primeiros concertos tiveram, entretanto, a presença de Fabiano Lozano: todos foram dados pelo Orfeão Piracicabano a quem Mário de Andrade, em 1928, assim se referiu: " é o primeiro coro artístico do Brasil. Não é o primeiro em data, mas o primeiro em valor. O Prof. Lozano é animador admirável dessa moçada piracicabana. A ele cabe o mérito indelével dos primeiros prazeres corais que o Brasil pode criar". Muitos foram os jornais da época que registraram a ovação dedicada ao grupo, quando de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, o que pode incrementar ainda mais a luta desenvolvida por seu maestro em favor do canto orfeônico em todo o país.
Tornando-se cada vez mais conhecido por suas composições e arranjos, Lozano respondeu pela chefia do Serviço de Música e Canto Coral do Departamento do Estado de São Paulo. E foi mais além: convidado, transferiu-se para Pernambuco, onde orientou o ensino de música e canto coral nas escolas públicas de todo o Estado. Só foi aposentar-se depois de 45 anos de atividades junto ao magistério paulista, depois de ter formado também o Orfeão do Professorado Paulista . Deixou muitas obras, inclusive dirigidas ao ensino da música no ensino básico e médio, assim como várias publicações específicas para canto orfeônico, sempre priorizando a educação musical das crianças.

A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, outra debutante do início do século XX em Piracicaba também não deixou de contribuir para o movimento musical. Pelas suas fileiras passaram os seguintes agrônomos, a quem temos de agradecer a colaboração de terem, além de profissionais da terra, terem abraçado seus sonoros instrumentos. Entre o período de 1906 a 1995 estes foram as pessoas que atuaram: Alberto Seccarelli, Alcides Guidetti Zagatto, Antonio Cobra Neto, Eduardo Augusto Salgado, Evandro Almeida, Franz Filipe Cury Usberti, Frederico Zink, Hélio Almeida Manfrinato, Jaime Rocha de Almeida, José Alfredo Usberti Filho, José Vizioli, Justo Moretti Filho, Mário Romanelli, Osires Tolaine, Roberto Usberti, Ronald Castellari, Vinicius Cotrim do Nascimento e Warwick Manfrinatto.


1992
Coral Luiz de Queiróz
É composto de aproximadamente 45 pessoas, entre alunos de graduação, pós graduação, professores, funcionários do campus e dependentes, além de algumas pessoas da comunidade piracicabana.
Regência de Nelson Norberto de Sousa Vieira Sobrinho
Formado pela Faculdade de Música da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Fez o curso clássico de piano no Conservatório Musical de Campinas e aperfeiçoamento com o pianista Eduardo Martins em São Paulo.
Foi aluno de Liana Amarante, com quem educou a voz.
É barítono e fez o curso de canto lírico também no Conservatório Musical de Campinas.
Está há 3 anos trabalhando como Regente do Coral Luiz de Queiróz.

Orquestra Piracicabana de Amadores
Recém criada Orquestra, com aproximadamente 25 músicos, muitos de renome da cidade ex-integrantes da Orquestra Fabiano Losano (década de 30), Orquestra Piracicabana (década de 60) e Orquestra Rizzi (década de 50), mesclada com jovens músicos.
Hélio de Almeida Manfrinato foi aluno de violino do maestro Germano Benencase até 1941.
Participou da Orquestra Piracicabana, como 2 violino, sob regência do maestreo Benedito Dutra.
Com a vinda do maestro van Den Branden a Piracicaba, e a seu convite, passou à viola da mesma orquestra.
Com o mesmo instgrumento colaborou com na sinfônica da Escola de Música de Piracicaba, sob a regência do maestro Ernest Mahale.
Foi regente do Coal Willian Koger da Igreja Metodista de Piracicaba por mais de 30 anos.
Participou em 1980, juntamente com Zilmar Marcos e João Barbosa Duarte, na formação do Coral Luiz de Queiróz, sendo seu regente até 1983.
Atualmente é regente da Orquestra Piracicabana de Amadores.

Os mais sinceros agradecimentos ao


Maestro Egildo Pereira Rizzi
Eng. Agron. José Carlos de Moura
Orquestra Sinfônica de Piracicaba





Bibliografia:


Revista da Cultura Artística
Folders cedidos por Rodolfo Renzi





quarta-feira, 15 de abril de 2009

EROTIDES DE CAMPOS


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No universo da música constam várias peças com o nome Ave-Maria. Muitos célebres são as de Charles Gounoud, de Franz Schubert, Giuseppi Verdi, Bonaventura Somma, Giacomo Puccinni. Tratam-se de melodias que ultrapassaram as fronteiras dos paises de origens e tornaram-se canções do mundo musical. A França, Itália e Áustria presentearam o mundo através dos seus compositores, com estas canções clássicas.
O Brasil também contribuiu com a sua Ave-Maria. Não no campo clássico, mas no popular. Falamos da célebre Ave-Maria composta por Erotides de Campos, nascido em Cabreúva, interior de São Paulo em 15 de outubro de 1896 e falecido em 20 de março de 1945. Compositor de marchinhas, sambas, choros, pianista e tocador de vários instrumentos, foi professor de física e química e passou parte da sua vida na cidade de Piracicaba. Em algumas composições, Erotides costumava assinar com o pseudônimo de Jonas Neves o que induziu muitas pessoas acreditarem que esse Jonas seria outro compositor, quando na verdade era o próprio Erotides.
A valsa Ave-Maria foi composta em 1924 e gravada em disco de cera por Pedro Celestino, irmão do cantor e ator Vicente Celestino. Na época não obteve consagração popular.
Mas, em 1939, o cantor Augusto Calheiros, de voz afinadíssima e dono de agudos peculiares, nascido em Maceió, em 05 de junho de 1891 e falecido no Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 1956, gravou esta valsa e tornou-a conhecida nacionalmente. Nossos avós e nossos pais cantaram muito esta canção. Depois desta, outras ave-marias enriqueceram o cancioneiro popular brasileiro. Por exemplo: Ave-Maria no Morro, de Herivelto Martins, Ave-Maria dos Namorados, de Jair Amorim e Evaldo Gouveia e Ave-Maria Sertaneja, de Júlio Ricardo e O. de Oliveira, tão bem interpretada por Luiz Gonzaga.
Aqui, uma oportunidade para você que, porventura tenha ouvido seus avós ou pais cantarem esta canção, ou mesmo você tê-la ouvido no tempo do rádio sadio, vale a pena cantá-la, embora baixinho, para recordar um tempo bem vivido.
Esta é a letra completa dela:
Cai a tarde tristonha e serena em macio e suave langor despertando no meu coração a saudade do primeiro amor.
Um gemido se esvai lá no espaço, nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas da Ave-Maria.
Sinos que tangem com mágoa dorida recordando sonhos da aurora da minha vida.
Dai-me ao coração paz e harmonia na prece da Ave-Maria. No alto do campanário uma cruz simboliza o passado.
De um amor que já morreu deixando um coração amargurado.
Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia.
A mensagem do meu passado quando o sino tange Ave-Maria
Este som de profundo mistério faz pulsar meu coração quando penso tão triste e sozinho num passado de grata ilusão.
Eu me lembro das tardes de outrora que contigo sonhava a poesia do amor que feliz te jurava ao murmúrio da Ave Maria.
Se no que tange para amenizar a saudade nos tempos que vivi a sonhar, mil venturas de suave alegria minha alma ao som da Ave Maria.
Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia a mensagem do meu passado quando o sino tange Ave Maria.
Cai a tarde tristonha e serena em macio e suave langor despertando no meu coração a saudade do primeiro amor.
Um gemido se esvai lá no espaço, nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas da Ave-Maria.
Sinos que tangem com mágoa dorida recordando sonhos da aurora da vida.
Dai-me ao coração paz e harmonia na prece da Ave-Maria.
No alto do campanário uma cruz simboliza o passado de um amor que já morreu deixando um coração amargurado.
Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia a mensagem do meu passado quando o sino tange Ave-Maria.

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Realmente, as músicas de Erotides de Campos tem o toque imortal da genialidade

Erotides de Campos foi piracicabano por escolha e vivência, tendo nascido em Cabreúva.
Ainda menino, veio morar em Piracicaba em companhia do tio, Luis da Silveira Neves, em 1908. Desde criança, sua vocação para a música despertou a atenção de professores e da família. Aos pais, músicos e muito pobres, não escapou o talento precoce do filho, que aos 8 anos de idade, já estudava piano com Francisca Júlia da Silva, poetisa de renome e pianista, ao mesmo tempo em que cursava escola municipal de Cabreúva.
Em 1905, um padre salesiano, ouvindo falar dos dons do menino, levou-o a estudar no Liceu Coração de Jesus, em São Paulo. O seu virtuosismo na flauta, apesar da tão pouca idade, surpreendeu a todos. Mas, passando as férias em Cabreúva, em 1907, Erotides foi atacado por tifo e teve que abandonar os estudos em São Paulo.

Em Piracicaba
Chegando a Piracicaba, Erotides de Campos integrou a já famosa orquestra piracicabana que se apresentava nos cines Iris e Politeama. A orquestra, entre outros, contava com a participação de Osório de Souza, Melita e Carlos Brasiliense, João Viziolli, Renato Guerrini. Participou, também, da banda União Operária.
Estudou na Escola Normal - atual "Sud Mennucci" - onde chamou a atenção do também músico Honorato Faustino, que passou a estimulá-lo. Formou-se em 1918 e foi lecionar na escola da estação de Monjolinho, em São Carlos. Conseguiu a segunda nomeação, retornando a Piracicaba onde lecionou no Grupo Escolar de Tanquinho e, depois, no de Dois Córregos. Em 1921, casa-se com Maria Benedita Germano.
Por alguns anos - de 1923 a 1932 - ficou em Pirassununga, atendendo ao convite do então prefeito e futuro interventor de São Paulo, Fernando Costa. Mas volta a Piracicaba em 1932, nomeado como professor de Química do Curso Complementar, anexo à Escola Normal.
Destacou-se não apenas como professor e músico, mas, também, como homem voltado à caridade. Ele, com sua mulher Tita, foram os criadores do "Culto à Saudade", que criou o costume de os vicentinos, no Dia de Finados, postarem-se à porta do cemitério, colhendo donativos para os necessitados.

A obra
São mais de 230 as composições de Erotides de Campos, entre peças editadas e não editadas. São berceuses, canções, choros, dobrados, charlestons, elegias, valsas e outras formas musicais. Suas partituras foram ilustradas por desenhistas famosos, como Belmonte, Carnicelli, Valverde e Vantik. Entre os parceiros de Erotides, quase sempre autores dos versos, estão Benedito Almeida Júnior, Elias de Mello Aires, Francisco Lagrecca, Leandro Guerrini, Nilton Almeida Mello, Silvio Aguiar Sousa, entre outros.
Usando pseudônimos, Erotides de Campos acabou sendo vítima de um grande equívoco: a sua mais famosa composição, a "Ave Maria", foi composta com o nome de Jonas Neves, na verdade parte de seu nome, Erotides Jonas Neves de Campos. Isso lhe custou a retenção, após sua morte, dos direitos autorais pela SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais). Apenas em 1985, o jornalista Luiz Thomazi conseguiu desfazer o equívoco, permitindo, à viúva Tita, usufruir dos direitos autorais.
Entre as centenas de composições, destacam-se, além da "Ave Maria", "Murmúrios do Piracicaba", Alvorada de Lírios, Uma Barquinha Azul.
Erotides de Campos morreu repentinamente, em 20 de março de 1945, quando elaborava a capa do "Cancioneiro Escolar", com músicas suas. Homem humilde, recatado, mulato, Erotides de Campos recebeu a homenagem de Piracicaba num enterro em que se revelou a comoção popular. Seu nome foi dado a uma rua da cidade, ao grupo escolar de Paraisolância e a uma sala de música o do I. E. "Sud Mennucci". No cemitério da Saudade, foi erguido um mausoléu com as primeiras notas musicais da "Ave Maria" inscritas em mármore
Em Piracicaba, foi instituída a Semana de Erotides de Campos, que tem sido esforçadamente levada à frente pelo biógrafo de Erotides, José Carlos de Moura, engenheiro agrônomo.
Fotografias
1- Erotides de Campos moço, quando estudava na Escola Normal-1921
2- Erotides (em destaque) em 1905 na Banda Orfelina, de Cabreúva
3- Erotides com Nelson Gonçalves "Ao distincto amigo Erothides de Campos, uma recordação de grata amizade. São Paulo 1 de outubro de 1936 Nelson"
4- Erotides de Campos e sua esposa no Rio de Janeiro "Rio 1 de janeiro de 1929"

Bibliografia
Memorial de Piracicaba 2002/03, de Cecílio Elias Netto
Alvorada de Lírios Obra musical de Erotides de Campos. Publicação da FEALQ Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiróz 1996 Coordenação José Carlos de Moura

Agradecimentos
Os mais sinceros agradecimentos a todos aqueles que permitiram a síntese de textos, fotos, letras e músicas, em especial ao Dr. José Carlos de Moura, ao maestro Egildo Rizzi, da maestrina Helen Sanches, Caco Piccoli e o jornalista Cecílio Elias Neto.
Uma lei promulgada em 1996 institui a Semana Erotides de Campos entre 9 a 15 de outubro, onde acontecem apresentações musicais do referido compositor.

Todos estes fatos demonstram mais uma vez o compromisso dos cidadãos de Piracicaba nas mais diferentes esferas, e outros também que não da cidade, em colaborar nas mais diversas formas no sentido de divulgar e manter à tona na memória da população o que esta cidade acobertou em seu seio com tanto carinho e que a honra sobremaneira.

sábado, 4 de abril de 2009

MANOEL MARTHO

Veja mais em:
http://www.youtube.com/watch?v=HGcprf8l_ec


MANOEL MARTHO

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Piracicaba é uma cidade quase que milagrosa.

Milagrosa no sentido de ter sido chamada de Ateneu paulista nas primeiras décadas do século XX: seu nível de ensino era um dos melhores.

Milagrosa por ser local escolhido como residência do primeiro presidente civil do Brasil.

Milagrosa por ter existido pessoa como Luis de Queiróz, quinto filho do Barão de Limeira e neto do Marquês de Valença.

Herdando as propriedades do pai, escolheu esta cidade para instalar seus negócios. Assim foi criada uma fábrica de tecidos, e Piracicaba já em 1893 possuía energia elétrica graças a este gênio empreendedor.


E seguramente o maior legado que deixou, não apenas para esta cidade, mas inclusive elemento de orgulho para todo o Brasil, foi lançar as raízes da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, referência mundial em ensino e pesquisa.

Milagrosa por ter vivido um também aqui Estevam Ribeiro de Sousa Rezende, o Barão de Rezende. Os frutos de seu trabalho renderam a Piracicaba o Engenho Central, o desenvolvimento do transporte fluvial, o Teatro Santo Estevam, o ramal da Estrada de Ferro Ituana, a ponte sobre o Rio Piracicaba.

A ingerência de sua filha ocasionou a construção do Sanatório São Luiz (para tuberculosos), da Igreja Imaculada Conceição, na Vila Rezende e também estímulo no Instituto Baronesa de Rezende.

Poderíamos continuar a relacionar um infindo rol de nomes benfeitores da antiga “Villa da Constituição”. Mas nosso interesse no momento fundeia-se nos talentos artísticos que aqui nasceram, palmilharam estas ruas e deixaram suas marcas indeléveis, marcando a memória de diversas gerações.

Para iniciar esta série de personalidades, escolhemos nada mais nada menos que um pintor. Seu nome é Manoel Martho. A preferência à sua pessoa é porque ainda está entre nós. Prestar homenagem póstuma a quem quer que seja não é concludente em nossa visão. O importante é a pessoa receber os lauréis que tenha direito pelo seu desempenho, dedicação e fibra para atingir o almejado, e não seus familiares.

Optamos por Martho porque era a criança pobre, de família também nas mesmas condições. Com seus desejos e sonhos, lutava no seu dia a dia para levar alguns vinténs para casa e auxiliar na manutenção da mesma. Explorar sua jornada infanto-juvenil nos traz à mente as “Aventuras de Tom Sawyer” de Mark Twain, evocando as mirabolantes peripécias deste personagem.

Optamos por sua pessoa, pois, enfrentando todas as adversidades de uma vida atribulada, nunca deixou seu sonho morrer.


Ainda mais, nossa opção foi baseada na coragem e singeleza que teve dissecar de forma crua a nua sua luta pessoal e familiar voltadas para a subsistência. E em nenhuma ocasião de sua narrativa vemos ocorrer sequer uma palavra que possa ser encarada como queixa ou revolta de sua situação menos privilegiada que ele e sua família estiveram submetidos.

Martho formou-se professor e em 1952 assumiu a cadeira na cidade de Nova Granada, noroeste paulista. Foi onde conheceu Lourdes Vicente Santana com quem viria a casar-se um ano depois. Em 1961 fixou residência em São José do Rio Preto, onde vive até os dias atuais.
Em seu livro intitulado “Auto-retrato” (Editora Degáspari 2008 Piracicaba) podemos mergulhar neste mundo quase onírico e nos deleitar com a história de um homem que fez de seus sonhos infantis seu motivo existencial, e trilhando pelos mais diversos caminhos, com o apoio de pessoas como Prof. Leandro Guerrini e sua esposa, Eugênio Nardim, Frei Paulo, a Família Dutra e muitas outras pessoas, atingiu o ponto desejado.

Com suas cores intensas e vibrantes, retratou o mundo em que viveu e vive, ocupando seu lugar no espaço e na história. É uma mensagem de otimismo e uma lição de vida.

Por isto e tudo mais, nada mais justo que falar: é um homem que veio e venceu.


Quadros

Ressureição de Lázaro
Sermão da Montanha
Nhô Efigênio
"Casa do Povoador" de Piracicaba




sábado, 10 de janeiro de 2009

CENTENÁRIO DO LAR DE VELHINHOS DE PIRACICABA


Av Torquato Silva Leitão, 615 Piracicaba - SP

CEP 13416-215

(0xx)19 3402-7747







LAR DOS VELHINHOS DE PIRACICABA


O Lar dos Velhinhos de Piracicaba é uma instituição secular, fundada em 1906 pelos hercúleos esforços de Pedro Alexandrino de Almeida, bancário e comerciante que exercia suas atividades em Santos, São Paulo e Piracicaba no começo do século XX.
Para condignamente comemorar o Centenário do Lar dos Velhinhos de Piracicaba, foi lançado o livro “Lar dos Velhinhos de Piracicaba a Saga e a Senda de um Ideal”.
O livro, com 253 páginas no formato A4, capa dura, explora desde os meandros de sua fundação e manutenção nas primeiras fases de sua existência até os dias atuais.
Fartamente ilustrado, com mais de 500 imagens, algumas coloridas, outras em sépia, desvenda a intimidade de sua existência e manutenção. Disseca o pensamento de uma série de pessoas que estiveram à sua frente lutando por sua sobrevivência nas fases mais difíceis, como nas guerras e períodos recessivos que assolaram o século XX.
Mostra os profissionais abnegados, médicos e odontologistas que nunca deixaram de fornecer a devida assistência aos idosos. Desnuda as obras de arte que sua galeria encerra, de grandes pintores que colaboraram no seu patrimônio artístico. Expõe o altruísmo das Irmâs, algumas que passaram quase toda sua vida cuidando destes necessitados.
A título de ilustração transcrevemos na íntegra o prefácio, redigido por Antonieta Rosalina da Cunha Losso Pedroso, Diretora do Jornal de Piracicaba, bem com da professora e historiadora Marly Therezinha Germano Perecin, pessoa extremamente competente, que abraçou Piracicaba como sua cidade e seu berço. Há alguns textos e fotos que foram disponibilizadas a título de curiosidade.

PREFÁCIO
Este alentado volume, cujos dados foram competente e minuciosamente recolhidos por Olívio N. Alleoni, retrata com fidelidade a pujança da história do Lar dos Velhinhos, desde os seus primórdios, constituindo-se um marco importante de seus cem anos de serviços à comunidade de Piracicaba e região, fincado a 26 de agosto de 2006. Hoje, um ano após a efeméride, esse precioso documento é lançado a público com o registro absolutamente completo do século que se encerrou. O livro, muito bem elaborado, relata com detalhes a vida da Instituição, seus primeiros abrigados, os funcionários, os voluntários colaboradores, os abnegados e perseverantes dirigentes, a longa lista de generosos contribuintes para a manutenção do Lar, os doadores mais destacados, a laboriosa atividade das Irmãs da Congregação Franciscana do Coração de Maria, que a ela se agregaram em 1917.
Imortalizados em registro especial para figurarem eternamente ao lado de Pedro Alexandrino de Almeida, fundador emérito do aprazível Asylo de Velhice e Mendicidade, construído à sombra das jabuticabeiras que emprestavam um ar romântico ao lugar, desfilam, pela acurada pena do autor, os nomes dos pioneiros Raphael Marques Cantinho, Juiz de Direito da Comarca; João de Moraes Barros, João Pedro Dória Rodrigues da Costa; Álvaro de Carvalho, diretor do JP; Orlando de Mattos Brito; Pedro de Camargo; Carlos Zanotta e Antonio Augusto de Barros Penteado, que presididos em assembléia pelo primeiro, vieram a constituir a primeira diretoria do Lar.
O propósito de Pedro Alexandrino vingou. A partir do anúncio no periódico da cidade que chamou a atenção do público piracicabano para comparecer contribuindo para a compra do lugar e soerguimento do Asylo de Velhos o sonho não parou. Tijolos foram doados, areia, cimento, cal acumulados e a obra começou com a ajuda de Deus e a boa vontade dos homens. Em 1907, o prédio iniciou as suas atividades abrigando 11 velhinhos necessitados. Waldyr Martins Ferreira, um dos mais ativos presidentes que tomou em suas mãos as rédeas do Lar, em belo artigo fez questão de mencionar que o Lar não era uma “estação de última parada”, onde os velhos conduzidos pelo “comboio da vida” iriam aportar para a “derradeira viagem”. Ele chamou o Lar de “A Casa de Deus aberta aos homens”, uma casa para onde a estrada da vida os foi levar, cheia de carinho e fé inquebrantável no amor a Deus e ao próximo.
Hoje, graças a Jairo Mattos e sua fabulosa equipe, o abrigo de velhos não é mais um lugar de abandono e esquecimento, onde espera e dor habitam os corações. O Lar não é só um depósito: é uma cidade com habitantes vivos que entram e saem, com moradias de todos os tipos, diferenciadas ao gosto de quem nelas vive. Não é mais feito de pavilhões femininos e masculinos apenas onde se lobrigava ver a fisionomia de cada conformado cidadão aguardando o fim de sua existência. Quando se adentra aos limites do Lar percorrem-se ruas, encontram-se árvores, arbustos, flores rasteiras e trepadeiras saltitantes. Há um belo lago, em frente à Igreja, onde se realizam missas e casamentos. Um coreto aguarda as bandas, e crianças soltam seus gritinhos, buscando pássaros, e depois correndo para os braços do vovô, da titia e da velha senhora que as aguardam sorrindo e satisfeita para cobrar os seus beijos em troca de saborosas guloseimas. O Lar tem refeitório, tem médico, tem dentista, fisioterapeuta, mas as chaminés das casas, dos alegres bangalôs expelem fumaça, denunciam comida gostosa, saindo das panelas, salivando as bocas, despertando desejos, inspirando cobiças vindas dos cheiros exalados dos quitutes saídos das receitas coletadas de há muito.
Esta, a realidade do abençoado Lar. Pedra sobre pedra foi erguida neste século de luta e realizações. Trezentos e noventa e quatro abrigados gozam da sua estrutura bem-feita e bem planejada. Olívio Alleoni recolheu toda a sua história, inseriu depoimentos preciosos e fez de seu livro um álbum de recordações. Ele é um ponto de partida para um novo século que se inicia. É um testemunho vivo do passado e do presente. Muitos nomes estão impressos aqui evidenciando o trabalho, a generosidade e o desprendimento desses abnegados que ajudaram a transformar a humilde e despretensiosa Casa de Deus na cidade pulsante exposta aos nossos olhos, para orgulho, para felicidade, para conforto e apaziguamento de nossas almas.
José Barbosa Ferraz, década de 20; José de Souza Gomes Coelho, décadas de 30 e 40; Luciano Guidotti, década de 50; Jorge Cesar de Vargas, década de 60; e Jairo Ribeiro de Mattos, trazido por Aristides Giusti na década de 70, atravessando a de 80 e a de 90 até os nossos dias, preenchendo com seu fôlego e dedicação também a década primeira deste século!
As personalidades que compuseram as 62 diretorias do Lar estão fielmente nomeadas neste documento do centenário. Vários outros presidentes aqui vieram e daqui se foram. Não estão esquecidos. Foram todos soldados do bem, imortalizados com os seus companheiros nas páginas da história. Ressaltamos os que se doaram por décadas e rendemos nossas homenagens ao “homem que sempre cultivou rosas”, que nesses 40 anos permaneceu inquebrantável à frente do lar. A festa é de todos; mas o filho de Dona Antoninha há de ser lembrado com justiça como o grande arquiteto da Cidade Geriátrica e ela, sua extraordinária mãe, na certa está lhe enviando todas as rosas que pôde colher lá em cima, muitas rosas, rosas perfumadas, como bênçãos extravasadas de seu amor, regadas a lágrimas de pura alegria pela felicidade que este seu dileto filho lhe deu.

Antonietta Rosalina*

*Antonietta Rosalina da Cunha Losso Pedroso, diretora do Jornal de Piracicaba




VISÃO DE UMA HISTORIADORA

Um médico e escritor piracicabano, Olivio Nazareno Alleoni, vem completar com este livro, “Lar dos Velhinhos de Piracicaba”, a trilogia de excelentes trabalhos sobre a nossa sociedade de cultura (Uma Fresta para o Passado-2003 e Cururu em Piracicaba-2006). Certamente a série ainda está incompleta e outros estudos terão seqüência oportuna.
Em relação ao “Lar dos Velhinhos de Piracicaba”, Dr. Olivio venceu o desafio de pontuar com fidelidade o secular desenvolvimento de uma sociedade filantrópica e beneficente que, havendo sido conduzida sob a proficiente administração de gestores, tão dedicados quanto visionários, teve de aguardar décadas para alcançar a atual configuração e maturidade. Para traçar o quadro evolutivo que permite clarear as diferentes fases deste processo, o autor cita conscienciosamente as suas fontes manuscritas e impressas, oferece informações abundantes, uma antologia de crônicas, um catálogo de obras de arte e seus autores, um inventário das Diretorias e beneméritos, bem como a relação das queridas Irmãs Franciscanas do Coração de Maria, que ali se encontram desde 1917.
Os leitores poderão colher uma completa descrição física do Lar – patrimônio originalíssimo do coração piracicabano –, para ser apreciada por todas as idades e observadores, até mesmo por quem enfoca olhar de turista. Paisagismo e beleza natural, fé e arte sacra, calor humano e desvelos, interagem de baixo da harmonia arquitetônica habilmente distribuída pelo conjunto das edificações: os pavilhões, os chalés e os flats, as dependências utilitárias, a Igreja e a gruta, o lago e o salão de festas, o bazar, o museu e as oficinas.
Ao citar números, o autor evidencia a presença de um verdadeiro regimento de funcionários contratados e colaboradores voluntários, de amigos dedicados e defensores intransigentes, diretores em permanente defesa do interesse da Casa. Não omite detalhes que desvelam a vida social dos abrigados, que incluem até mesmo a colônia de férias de Praia Grande. Lembro-me de ouvir o Jairo (o presidente Jairo Mattos) dizer aos ex-alunos da Escola Sud Mennucci: “Quero que os velhinhos conheçam e desfrutem o mar”.
Pois bem, o autor demonstra tudo isto e deixa aberta as possibilidades do leitor vir a conhecer muito mais. Exatamente porque a Instituição guarda sua história, enquanto haja contribuído para a construção de outras tantas histórias pessoais. A sociedade piracicabana necessita compreender a excelência do tema de que trata o autor e incorporá-lo às suas tradições, deve contextualizá-lo com o sentimento de alegria de quem recebeu maravilhoso presente.
E não ter arrepios diante do passado. A Instituição nasceu em 1907, época em que eram de recente lembrança na cidade as epidemias de tifo, peste bubônica e varíola, relacionadas à falta de saneamento e estrutura urbana. Quando o mal veio a ser resolvido pelo médico sanitarista Dr. Paulo de Moraes Barros, entre 1899 e 1901, Piracicaba passou por um processo de remodelação e embelezamento assinalado pela construção de praças e jardins, o parque Barão de Rezende, parque Barão de Serra Negra, o jardim do Teatro Santo Estevão, o mirante do Salto, o portal do Cemitério da Saudade. Foi chamada de “a pérola dos paulistas”.
Em 1907 a população urbana era avaliada em 16.000 habitantes e a educação levada bastante a sério a fazia modelar entre as cidades do Estado de São Paulo. Das suas antigas escolas saiu a inteligência que brilhou durante o século XX em todas as áreas do conhecimento, que ajudou a construir o grande Brasil. Mas nem tudo eram flores naquele começo de século.
Não obstante, os números otimistas das realizações urbanas eram visíveis por todo o País. E Piracicaba não fazia excessão às seqüelas da tremenda chaga social proveniente dos séculos da economia escravista que marcou a Colônia e o Império. O mal estava em toda a parte e nas cidades paulistas acoplava-se às improvisações da política imigracional. Os jornais da época davam conta do inventário de desgraças e do desajuste das populações incorporadas aos espaços urbanos, num cenário tão surpreendente quanto preocupante, proporcionado pela economia cafezista que, se tinha algum êxito no mercado internacional, submetia as finanças internas a crises formidáveis, levava a becos sem saída, refletindo perversamente sobre o conjunto da população.
Chama a atenção do observador o fato de que quase a totalidade das entidades assistenciais de Piracicaba tenha surgido neste período final do século XIX e começo do século XX. As transformações e as crises geravam necessidades urgentes: Asilo São Lázaro (1885), Sociedade da Conferência São Francisco de Paula (1888), Hospital Psiquiátrico Barão de Serra Negra (1897), Hospital da Irmandade de Santa Casa (1893), Asilo de Órfãs Coração de Maria Nossa Mãe (1896-98), Sociedade Metodista de Senhoras e Agremiação Operárias Leigas do Bem (1897), Sanatório São Luiz (1902). O Asilo de Velhice e Mendicidade não seria exceção. As sociedades de assistência e proteção aos imigrantes têm origem neste mesmo período: Sociedade Italiana de Mútuo Socorro (1887), Sociedade Portuguesa de Beneficência (1897), Sociedade Beneficente Grêmio Hespanhol (1898), Sociedade Igualitária (1893) e Sociedade Beneficente Síria (1902). Esta seqüência, aliás incompleta, indicia o forte clima de insegurança e carências daqueles tempos e particulariza as questões gravíssimas de natureza socioeconômica.
A comunidade que se via a braços com as mais profundas mudanças nos campos do trabalho e das idéias, com a transformação importante na economia e dificuldades financeiras, foi a mesma que buscou saídas para os efeitos desastrosos no corpo social, tentando por diversas formas se equilibrar no ritmo descompassado do “progresso”.
Observe-se pelos indicadores assinalados às primeiras páginas do Livro de Matrícula da Instituição. Logo nos sete primeiros meses de funcionamento (1907), temos que dos 52 abrigados, 27 eram homens e 25 eram mulheres. Daquele total, 29 eram considerados brancos (55,76%) e 23 “de cor” (44,23%). A naturalidade é especificada: 46 eram piracicabanos (88,40%) e 06 eram procedentes “de fora” (11,53%). Finalmente, 42 eram brasileiros (80,76%) e 10 eram estrangeiros (19,23%) sendo 04 africanos, 01 espanhol, 03 italianos, 01 português e 01 alemão nesta pequena amostra, os índices porcentuais falam pelo período.
Passemos a considerar que a sociedade piracicabana sempre contou com muitos corações iluminados pelo Divino Espírito Santo. Foi assim desde o século XVIII, quando a pequenina Freguesia de Santo Antônio se constituiu em abrigo dos perseguidos do poder colonial e refúgio dos infelizes egressos do Iguatemi, após a capitulação da fortaleza.
No século XIX, quando o Oeste Paulista desenvolveu lavouras de exportação (cana, café), se adensou demograficamente e se politizou na direção do liberalismo republicano, o comprometimento com o trabalho escravo e a posterior introdução do capitalismo no campo determinaram fenômenos socialmente importantes. O episódio do Massacre de Cubatão (1883), conseqüente a uma fuga de escravos da região de Piracicaba, teve repercussão nacional e indiretamente acelerou o movimento da substituição do trabalho escravo pela mão-de-obra imigrante.
Os esforços pela liberação na lavoura não resolveram o problema da sociedade desvalida, que se amostrava ao longo das estradas, nos largos e chafarizes, mendigando nas ruas ou nos anais da violência urbana, como lembram os cronistas da época. O Largo de Santa Cruz, o Itapeva na altura da rua Moraes Barros e a ladeira da rua do Sabão eram vitrines de horrores e sofrimento. Há fartos testemunhos deste período em Piracicaba.
O bem-sucedido comissário de café e sócio majoritário do Banco Indústria e Comércio de Piracicaba, Pedro Alexandrino de Almeida, vivenciou aqueles dias. Bem poderia acomodar-se à felicidade terrena com que a vida lhe presenteara, com o aconchego da família, as alegres pescarias no Salto, ou a contemplação das graças naturais de sua bela cidade. Mas tinha a sensibilidade para o social e o quadro que se lhe antepunha demovia-o a tomar-se de cuidados pela velhice desamparada. Capaz de liderança, decidiu-se pela arregimentação de um grupo solidário à causa, suficientemente gabaritado para promover com êxito a experiência que já se realizava em outras cidades paulistas, a de fundar um instituição qualificada por Asilo dos Velhos, segundo os conceitos da época. A sociedade piracicabana correspondeu, as famílias mais representativas contribuíram financeiramente, a imprensa apoiou (Jornal de Piracicaba, Gazeta). Em pouco tempo formou-se uma Diretoria que adquiriu a Chácara das Jabuticabeiras nos “subúrbios da cidade, às margens do Rio Piracicaba”. A solene inauguração deu-se em 03/02/1907, terminadas as adaptações necessárias e alistados os onze primeiros abrigados, cinco homens e seis mulheres.
Lançada a semente, deu-se início à luta desesperada pela sobrevivência da Instituição que não parava de crescer, fomentada pelas crises econômicas e políticas do país. O montante orçamentário decorria unicamente de doações. Os mais ilustres cidadãos serviam como diretores, os mais renomados médicos por ali passaram, Dr. Alfredo Cardoso, Dr. Oscarlino Dias, Dr. Torquato Leitão. Sacrifícios à causa nobre e gerenciamento sobre as pequenas rendas provenientes de mensalidades, rifas, solidariedades diversas e doações de gêneros, se conseguiam arrefecer as dificuldades da sobrevivência não supriam as carências organizacionais de uma instituição vocacionada para a caridade, mas que devia pautar-se por precípuas e específicas atividades de natureza geriátrica. Símbolo de dedicação deste período de sacrifícios e doações foi Nhonhô Coelho (José de Sousa Gomes Coelho), seu inesquecível presidente por mais de uma década (1935 a 1049).
A segunda metade do século XX induziu à releitura do antigo projeto de benemerência e forçou transformações que promoveram um novo conceito de instituição. Melhoramentos incontáveis, racionalização administrativa e ampliações foram conduzidos por dois homens de grande visão, Luciano Guidotti e Jorge Cesar de Vargas. Como fruto desta ação modernizadora, ao Velho Asilo de Velhice e Mendicidade sucedeu com muita felicidade o Lar dos Velhinhos de Piracicaba.
A partir de 1971 deu-se início à era Jairo Mattos, assim reconhecida porque acoberta o longo período até o presente, em que todas as Diretorias constituídas se envolveram denodadamente no projeto da Cidade Geriátrica. Criação sua, obra pioneira e modelar às instituições congêneres do país e do mundo, converteu-se no trabalho apaixonado das poderosas equipes encabeçadas pelas presidências de Jairo Mattos, Waldyr Martins Ferreira, Luis Pescarim, Mario Dresselt Dedini, Orlando Veneziano, Célio Soares Moreira e Yvens Santiago Marcondes.
Grandes nomes se sucedem e às vezes se revezam no interior das Diretorias, perseguindo os objetivos do projeto, sintetizados pela busca do apriomoramento global da Instituição e pela sua auto-suficiência econômica. Esta luta guarda o saldo de sacrifícios e conquistas. Neste primeiro centenário traz a chama dos grandes realizadores, particularizando o idealizador da Cidade Geriátrica, e dispensando o concurso da memória, identificando-se com ele.

Piracicaba, 10 de julho de 2007
Marly Therezinha Germano Perecin


SER IDOSO E SER VELHO

Em sentido figurado é idoso o que tem muita idade; velho é o que perdeu a jovialidade.
A idade causa a degenerescência das células; a velhice degenerescência do espírito.
Você é idoso quando se pergunta se vale a pena; você é velho quando sem pensar, responde que não.
Você é idoso quando aprende; você é velho quando já nem ensina.
Você é idoso quando se exercita; você é velho quando só descansa.
Você é idoso quando ainda ama; você é velho quando sente ciúmes.
Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida; você é velho quando todos os dias lhe parecem o último dia de sua longa jornada.
Você é idoso quando seu calendário tem amanhãs; você é velho quando ele somente tem ontens.
O idoso se renova em cada dia que começa. O velho se acha em cada noite que termina, pois enquanto o idoso tem seus olhos postos no horizonte, onde o Sol desponta e ilumina a esperança, o velho tem sua miopia voltada para as sombras do passado.
O idoso tem planos; o velho tem saudades.
O idoso curte o que lhe resta da vida; o velho sofre o que o aproxima da morte.
O idoso leva uma vida ativa, plena de projetos e plena de esperança. Para ele o tempo passa rápido, mas a velhice nunca chega. Para o velho as horas se arrastam vazias de sentido.
As rugas do idoso são bonitas porque foram sulcadas pelo sorriso; as rugas do velho são feias porque foram vincadas pela amargura.
Em suma, o idoso e o velho podem ter a mesma idade no cartório, mas têm idades diferentes no coração.
Que você, idoso, viva uma longa vida, mas nunca fique velho. E você, velho, aprenda a ser idoso...

(Autor desconhecido)


DECLARAÇÃO DE FRANCISCO LAGRECA

Há o amparo que nasce da hipocrisia e há o que nasce da sinceridade. O primeiro é o fruto podre, caído das almas degeneradas; o segundo é a flor mais pura e mais formosa que todas as flores, e que só viceja no fundo dos corações verdadeiramente humanos. Neste Asylo se encontra o amparo que nasce da sinceridade. É um templo de infinito zelo e de infinita consolação, diante de cujos umbrais o meu pensamento se ajoelha reverente, e faz votos para que se prolonguem pela vida destes pobres asilados, a bondade, o carinho, as raras e imensas virtudes do seu fundador.

Francisco Lagreca
Piracicaba, 4 de abril de 1907.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MEMORIAL: CRAVEIRO E CRAVINHO




Craveiro e Cravinho

Craveiro (Sebastião Franco 5-10-119131) e Cravinho (João Franco 06-09-1939) são dois ícones da moda de viola do Brasil. Nascidos em Pederneiras, cidade perto de Bauru, em área rural, eram em 9 irmãos.
Como todas crianças da área rural nascida na primeira metade do século XX, já na meninice exerciam funções auxiliando a família, que no caso deles era trabalhar com leite (ordenhar vacas, encherem os latões e levá-los em carro de boi até ao posto de coleta).
Tendo origem dentro de uma família que sabia cantar (assim era com o pai e a mae, e também avós), logo se integrou a esta atividade. O irmão começou a auxiliá-lo e assim surgiu a dupla. Mas naquele tempo isto não gerava recursos suficientes para subsistência, e assim aprendeu o ofício de marcenaria.
Em 1957, logo após o casamento, veio morar em Piracicaba. E foi neste tempo áureo que veio a conhecer uma série de pessoas que o alavancaram na música. Com o cururueiro “Barbosinha”, ainda no tempo de Lazinho Marques e Nhô Serra, e depois tiveram um programa fixo na antiga rádio PRD6.
Entre as pessoas que tiveram um papel preponderante no auxílio à música de raízes, que foram verdadeiros “mecenas” dos artistas que moravam em Piracicaba estão os nomes de Abel Pereira e seu filho Jaime Pereira.
Do relacionamento com Nhô Serra (Sebastião da Silva Bueno) surgiu na década de 1960 uma música (Ponta de Faca) que gravamos juntamente com uma outra minha e do meu irmão (Mata Deserta), ainda em disco de massa (78 rpm ), com o Tedy Vieira



Ponta de Faca

No ano seguinte gravamos mais um disco, a Flor do Lodo, composição de Zezo Morales e Juquita e Julia, composição minha e de meu irmão.



Flor do Lodo

Este foi o trampolim de nossa carreira artística. Depois disto, começaram as apresentações. Começamos na TV Record, no programa Canta Viola, de Geraldo Meirelles. Depois vieram programas como “Almoço com as Estrelas”, Hebe, Gugu e uma série de outros. Por dois anos apresentamos o programa “Som Verde” na T.V. Bandeirantes.
Perdemos a contagem de quantas vezes nos apresentamos na televisão, quantas apresentações fizemos em rádio e ao vivo. Afinal, são 50 anos de atividade musical quase ininterrupta.

Ao todo, foram em torno de 20 discos produzidos em nossa vida.

Para agradecer ao povo e a cidade de Piracicaba por todo o apoio que nos deram durante nossa vida, nada melhor do que oferecer o Hino de Piracicaba, composta por Newton de Mello, em 1931.



Hino de Piracicaba

Para brindar aos que apreciam a moda de viola, ainda fizemos este pequeno especial para vocês se deleitarem e rememorarem nussas músicas.



"Petit Pourri"





Não poderíamos deixar de fazer um agradecimento especial aos Irmãos Franco (Craveiro e Cravinho) por terem acedido em gravar as imagens nas diversas localidades para que fossem divulgadas, bem como terem consentido que as músicas "Ponta de Faca" e "Hino de Piracicaba" fossem colocadas na íntegra.
SEBASTIÃO DA SILVA BUENO: "NHÔ SERRA"


Homenagem ao Cururueiro "Nhô Serra"



Capítulo do livro
"Cururu em Piracicaba", de Olivio N. Alleoni

2.1- Nhô Serra, visto pelo filho Oscar Francisco Silva Bueno
Sebastião da Silva Bueno foi um caboclo que nasceu pelos lados do bairro da “Vicentada”, na Fazenda Figueira[i] em 16 de junho de 1928.
Era um caboclo que tinha a ambição de ser cantador, nasceu para ser cantador, “por causo” que já vinha duma geração de cantadores. Posso dizer que ele nasceu no meio da festa e viveu no meio da festa. Sebastião da Silva Bueno, Nhô Serra, quando veio ao mundo, já tinha o pai que cantava, a mãe que cantava, os tios que cantavam, nasceu no meio da viola e no meio do repente e do cururu.
Antigamente se cantava muito louvando a parte religiosa. Tudo o que se fazia era cantado enaltecendo, e depois se brincava com os versos. Mas o costume que predominava na área rural era o seguinte: tinha-se uma colheita boa, fazia-se um mutirão, e depois havia festa com comida, bebida e cantoria. Qualquer festa por causa de um santo ou reza virava nisto também. Qualquer evento que havia, era isto o que acontecia. E na época, na primeira metade do século XX, a parte rural era bem mais habitada do que hoje.
Sempre existia alguma festa, aqui ou acolá. Carne de porco ou vaca, alimentos raros no meio rural antigamente, nunca deixavam de faltar nas principais festas. Quando matava um boi ou porco, este era dividido para a colônia[ii] inteira. Havia a comida, a bebida e o canto. E o cantar sempre foi diversão no meio rural. Era somente ter uma sanfona ou viola... E sempre havia alguém com uma.
Não conheci meu avô, porque ele, Oscar Bueno, morreu com 45 anos. Mas conheci meu bisavô, que morreu de registro com 104 anos. Todos cantavam.
Meu avô morava em uma casinha de barro e tinha um pé de fruta de pomba[iii] de um lado e de outro uma barriguda ou uma paineira. Morava sozinho, e quando faleceu a casa caiu e as duas árvores morreram. Aquele lugar definhou e morreu junto com ele.
A luz elétrica passava sobre a sua casa, até fazia “barriga” neste lugar. E ele nunca acreditou em energia elétrica, em rádio ou televisão. Nunca acreditou que o homem tivesse ido à lua.. Ele não conseguiu entender o rádio. Cumo é que’ste pessoar pode tá dentro du rádio? Sempre viveu em seu mundo, com sua cultura. E sempre cantando.
Cantava não o cururu que é cantado hoje. Cantava a batida antiga de viola com tambú[iv] junto, em uma levada bem mais simples. E era cantada muito a “cana verde” [v] naquela época.
Toda festa que ocorria reuniam-se, não vamos falar em dois, três cantadores, todo mundo entrava e cantava. É por isto que se falava roda de cururu. Cantava-se a levada que estava sendo feita. O ritmo e verso eram colocados pelo pedestre, que servia para várias coisas, desde a continuidade da parte religiosa até a profana. Naquela época não existia cantador melhor ou pior, todo mundo era igual.
Quando Nhô Serra veio para a cidade cantou pela primeira vez em Capivari entre 1945 e 1948. Tinha ido para tocar viola, mas João Davi não pôde cantar aquela noite. Nunca havia cantado profissionalmente.
Também já conhecia Chiquito do sítio. A primeira vez que cantou com ele foi também pelos lados da Vicentada[vi]. Ali entre os dois nasceu uma amizade enorme, que durou décadas. Quando Chiquito começou a cantar ele já estava no rádio, cantando com o “Buenão”, seu irmão.
Nesta época já existiam “os bambas” do cururu, que eram João Davi, Bastião Roque, Zico Moreira e Dito Silva. Não foi Nhô Serra que trouxe o cururu para a área urbana, mas sim este pessoal, inclusive no antigo teatro Santo Estevão[vii]. A antiga Rádio PRD-6 aproveitava quando havia cururu no teatro para fazer também no seu auditório.
Mas os “quatro bambas” eram “fechados”, só eles eram chamados na região toda para cantar. O primeiro a falecer foi Sebastião Roque, depois Dito Silva, João Davi e Zico Moreira. Quando um deles falecia logo era substituído. Assim é que entraram para o grupo Pedro Chiquito, Parafuso e Nhô Serra.
Meu pai para se destacar teve que oferecer alguma coisa diferente. E entrou juntamente com o Chiquito para cantar. Ao entrarem modificaram um pouco o cururu, dando certo grau de humor. E outra coisa, começou a ser feito um cururu mais acessível, procurando dar ao povo o que ele realmente gostaria de ouvir.
Chiquito chegava e estudava a festa para ver o que iria cantar. Dependendo do povo era o que cantava. Cantava muita história, cantava muito no Livro[viii]. Ele inventava muitas histórias. O interessante que o cururu naquela época começava às 7h da noite e ia embora até outro dia. E o povo ficava.
Antigamente, no cururu dos lados de Bofete, Laranjal, Conchas, quando chegava certa hora da noite havia um intervalo. O pessoal comia e depois voltava a cantar. E me lembro que se estendiam panos no chão para a criançada dormir. Ia toda a família e depois ficava a molecada a dormir no chão. Hoje isto não existe mais. Um cururu hoje para se durar duas horas tem que se fazer muita coisa[ix].
Nesta época em que estamos a falar, foi quando se abriram as portas para o cururu. Meu pai trabalhou na Rádio Difusora, onde ele ficou várias décadas.
O nome artístico “Nhô Serra” nasceu quando meu pai saiu do sítio e veio para a cidade. Isto foi na década de 40. No sítio tinha o apelido de Tiãozinho. O que mais gostava era contar causos, tocar viola e cantoria. O trabalho habitual nunca foi seu forte. Era uma pessoa cunhada para ser artista. Aonde chegava, começava a conversar e contar fatos, e tudo mundo parava de trabalhar. Começava a contar os causos e não parava mais.
Contava muita coisa que acontecia da Ibitiruna [x] (antiga Serra Negra). Tudo o que ele inventava e acontecia, acontecia em Serra Negra. Quando chegou a Piracicaba, seu primeiro emprego foi na Dedini. Agora imaginem o Nhô Serra trabalhar na Dedini. Não tinha como. Ficava sentado com o povo conversando e contando seus causos. Tanto que não durou muito este seu emprego. Então, foi aí que começou o apelido. “Olha, o Serra vem vindo”...
Nesta época, já havia entrado na rádio para cantar. Cantava com o “Buenão”, seu irmão mais velho (Antonio Cândido Bueno). No início era Tiãozinho e Buenão, depois mudaram o nome para Serra e Buenão. Mais uma alteração ainda foi necessária.. Foi o próprio pessoal da Rádio Difusora que sugeriu Nhô Serra. Então ficou a dupla Nhô Serra e Buenão. Meu tio cantava muito bem cururu. Ele era mais velho que meu pai. Mas houve um tempo em que mudou de religião e então nunca mais cantou[xi].
Nesta época também começou a cantar com Pedro Chiquito. A turma de meu pai que era forte mesmo: Nhô Serra, Pedro Chiquito, Zico Moreira e Parafuso. Este foi um tempo forte.
A amizade entre meu pai e Chiquito surgiu numa festa, cantando, no sítio. Só que nenhum dos dois lembrava qual foi o primeiro assunto que cantaram, não rememoravam a data, e nem como se conheceram. Apesar de ter sido uma amizade extremamente profunda, nenhum dos dois se lembrava como é que tinha sido o começo. Mas foi uma vida de amizade e não somente o profissional. Quando meu pai sofreu o “derrame” e voltou a falar, disse que tinha perdido metade do corpo, mas que não tinha problema porque ele ainda tinha a outra metade. Mas quando Chiquito morreu, disse: Lembra que quando tive o derrame, tinha perdido a metade do corpo? Agora que Chiquito foi embora, perdi a outra metade.
Depois disto, meu pai perdeu o ânimo não queria cantar mais.. Mas a verdade é que eu nunca o deixei parar. Realmente Nhô Serra, cantou até o final da vida porque eu o colocava na cadeira de rodas e o levava, nem que fosse arrastado. E isto era sua justificativa existencial.
O pessoal que estou dizendo que cantava, era requisitado na região toda. Por que o sucesso de Nhô Serra, Pedro Chiquito, o Luizinho Rosa, o Zico Moreira, Horácio Neto? Neste meio tempo, meu pai também lançou Jonata Neto e o Moacir Siqueira (chamava Moacir 70). Porque o sucesso?
Ele tinha programas em Piracicaba, na Difusora (PRD-6), na PRF-8 em Botucatu, Rádio Convenção de Itu, Rádio Cacique em Sorocaba, na Rádio Globo em rede nacional, e finalmente em Capivari (apesar de ser bem menos). Os programas eram aos sábados e domingos, então era uma correria. Geralmente eram ao vivo. E quando não dava para fazer ao vivo, era gravado. Ele saía de um lugar e ia para outro. Mas a realidade é que para ele isto não era trabalho, era uma diversão. A sua atuação nos programas de rádio foi uma das pilastras que fizeram meu pai conhecido.
Para mim meu pai foi o maior vendedor que existiu no mundo, ele conseguiu vender sua imagem, aquilo que não existia muito neste tempo, e principalmente na rádio. Mas quando ele chegava a uma região, ele acabava fechando muitas festas no lugar... A parte profissional e a capacidade de fazer amizades eram muito fortes nele.
Tenho muito que agradecer à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Ele se aposentou pela Universidade de São Paulo, onde exercia as atividades de apontador. E soube usufruir de sua atividade muito bem. Devido à facilidade de relacionamento, mesmo depois dos alunos saírem formados, ainda mantinha contato com eles. A recompensa logo vinha. Era solicitado a comparecer por estas pessoas para animar festas. Foi assim que fez o seu nome e dos companheiros. Mas apesar disto, quem se destacava era ele. Era ele quem cantava, quem produzia. Então, fez o seu nome. Esta foi a segunda pilastra.
A terceira pilastra foi a de estar sempre com ótimos cantadores e manter um objetivo, de dar ao público o que ele desejava ouvir, fazê-lo rir e se divertir.
Se pudéssemos falar numa quarta pilastra, deveríamos relembrar do temperamento dele, sempre brincalhão, senhor da situação, e nunca mostrando irritação para o público.
Meu pai na infância foi um “capeta”. De família pobre, nasceu na fazenda, namorou muito e casou-se tarde.
Veio para a cidade por dois motivos: tentar ganhar a vida e porque seu pai ficou muito doente, necessitando ser tratado na cidade. Ele teve tanta sorte, que inicialmente conseguiu morar em uma casa, junto às antenas da antiga Rádio Difusora, na Avenida Independência, onde também era responsável pela manutenção delas. Depois, mudou-se para a Paulista. Foi lá onde eu nasci em 1964.
Toda a vida ele foi cantador. Aonde chegava, cantava, onde tivesse uma viola, ele tocava. Se tivesse violão, ele tocava. Outra coisa que costumava fazer e o pessoal admirava: podia ser qualquer bailinho, qualquer festinha, ele pegava um caminhão de um companheiro, enchia de pessoas, de sanfona, violão e: Vamo lá que a gente faiz o baile... Levava quem tocava, quem bebia, quem comia, quem pagava, e fazia a festa mesmo.
Tem uma passagem bonita para contar. E quem conta é o próprio Nhô Serra, num show que deu aos formandos da agronomia de 1987. E começou falando que era professô na escola de agricurtura: professô di vassora. E nem ensiná eu pude, porque num deu tempo. E prá entrá na scola foi uma confusão. Todo mundo queria entrá, e eu num podia sê, porque eu sou “anarfa”. Cumo é qui eu ia entrá? Mai um dia era aniversário do governadô, i eu fui cantá. E cantei assim:
Querido Carvalho Pinto
Quero que preste tenção
A chave de meu São Paulo
Entreguei na sua mão
Quem ajudô a sarvá São Paulo
Poderá sarvá a Nação
Honesto Carvalho Pinto
Se Deus quizé em 65
Será u chefe da Nação.
Ele mi abraçô eu i eu falei no seu ovido: E meu emprego? Segunda-feira eu tava nomeado. Eu fiquei lá té hoje. Agora saí aposentado...
* * *
Meu pai foi indicado para trabalhar na agronomia, e era para trabalhar no campo. Ele chegou para minha mãe e disse: reze pra tudo qu’é santo que conhecê, acenda vela, faça promessa, porque si eu num consegui emprego hoje du jeito qu’eu quero agora, nunca mais...
Pegou, colocou o melhor terno dele, de “linhão 120”[xii], sapato de três cores no pé, “glostora”[xiii] no cabelo, bonitão, papel na mão da indicação, pegou e foi. Meu pai foi entrando, sem passar pelo departamento de recursos humanos, e foi entrando direto na diretoria.
A hora que chegou lá, uma pessoa o atendeu:
Pois não...
Eu sou Sebastião Bueno, que fui indicado... E teve como resposta: Já estou sabendo do caso, sim...
Entrou na sala e falou com o superior:
Sabe aquele cantador indicado? Ele está aí. Como é que eu vou falar para ele que vai ter que abrir valeta no chão, com picareta? Vá ver a estica que o homem está, está parecendo deputado... Como é que vamos fazer?
Mande-o entrar...
Entrou na sala e perguntaram:
Você tem noção o que veio fazer aqui?
Num sei. Disseram que era pra vir aqui pra trabaiá...
Ele tinha sido atendido na parte superior do edifício, onde tem um monte enorme de janelas, e então disse:
Já vou mostrar para o senhor o que vai fazer... De manhã, o senhor vai abrir todas as janelas aqui. E depois, a hora que for embora, o senhor fecha todas elas de novo.
Então, dizem que ele aposentou fazendo isto. Mas na realidade, como já anteriormente tinha sido dito, ele era apontador e bedel da ESALQ.

* * *
Outra passagem interessante é uma trova feita no tempo da Constituinte (1988)
Hoje nosso presidente
Tá numa dura situação
Porque a dívida du Brasiu
Causa admiração.
Do jeito que o Brasiu vai
Dá um passo pra frente e treis prá traiz,
Desse jeito num tá bom
Precisa que o Presidente
Deve prestá bem atenção.
Oiá pro lavradô
Que é a segurança da Nação.
A riqueza é a fia
Que vem por cima di tudo
Os operários são os gaios
Nesta grande construção
O governo é u tronco
Que segura u Brasiu na mão.
E a lavora é a raiz
Por baixo di tudo então.
Mais o governo tem que sabê
Qui se a raiz enfraquecê
A árvore intera
Cai nu chão.
* * *
Nhô Serra sempre teve seu lado brincalhão... Quando chegava a hora do desafio, ele costumava perguntar para o povo se ele queria que fosse xingando, louvando ou agradecendo. E o povo: xingando... xingando... taca o pau, taca o pau... E meu pai: Prá que adiantô o papa vir nu Brasil intão? Oh povo sem religião memo...
Hoje as coisas não mais assim. O cururu antigo era feito em cima de uma charada. Um falava e você tinha que descobrir o que o outro quis dizer. Aí você tinha que mostrar para o povo que havia entendido a charada, e respondia com outra charada. Este era o desafio antigo. Fazia uma crítica severa ou provocação e você tinha de sair dela com outra afronta. Não importava que o fato fosse verdade ou mentira. E tinha que fazer as coisas sem entrar na vida particular do outro. A “ofensa” que se fazia nunca tinha por finalidade realmente insultar os outros cantadores, mas sim criar um estado de espírito que motivasse a tomada de posição pela platéia, onde ela pudesse torcer por um ou outro cantador ou grupo de cantadores.
Na realidade, o palco era um teatro, e o que se passava lá em cima não aumentava ou diminuía a amizade entre os cantadores.
Hoje, aparentemente, o novo cantador vem com o assunto na cabeça, tudo planejado. Nada ou pouca coisa é criada na hora. Antigamente, os cantadores tinham uma atuação diferente.
Nhô Serra entrava e saía ano, eram sempre quatro cantadores e dois violeiros. Era sempre assim, sem falhar. Quando um cantador ficava doente, ele colocava outro, do mesmo nível. Não colocava pitoco[xiv] no meio. Existem ainda bons cantadores, que ainda mantêm a linha antiga do cantar.
Alguns cantadores hoje competem muito entre si. O cururu não é assim. Temos que cantar para agradar o público. Não adianta nada os cantadores ficarem brigando entre si.
Nhô Serra queria que o espetáculo sempre tivesse um determinado nível. Não queria divergências entre os que estivessem no palco. O alvo era o público, e nada mais. E foi assim que o Nhô Serra e os outros cresceram. Sem brigas, sem antagonismos. Na reunião antes do espetáculo, sempre dizia que iam cantar para alegrar e incentivar o povo, não importava quem ganhasse ou perdesse um desafio. Vamo fazê o povo sentí o gosto du cururu.
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A jornada terrena de Sebastião da Silva Bueno, o Nhô Serra, encerrou-se s 19.30 do dia 23 de agosto de 1997.
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[i] Região rural de Piracicaba.

[ii] Denominava-se colônia o agrupamento de casas em área rural, onde habitavam diversas famílias que prestavam serviços a uma propriedade rural.

[iii] FRUTA DE POMBA: árvore de até 13 m (Tapirira guianensis), da família das anacardiáceas, nativa de áreas tropicais da América do Sul, com madeira avermelhada, rígida, de qualidade, folhas membranáceas, com folíolos variáveis em número e forma, flores verde-amareladas, em panículas, e pequenas drupas ovóides, muito procuradas por pássaros; bom-nome, camboatá, pau-pombo, tapirirá, tapiriri, tatapirica.

[iv] TAMBU: O maior dos tambores utilizados no jongo e no batuque paulista; tambor, guanazamba

[v] CANA VERDE: é uma dança em desuso, hoje é considerada uma variação mais longínqua do Siriri. Também é dança típica da baixada cuiabana. Basicamente é uma dança de roda simples, onde homens, mulheres e crianças dançam numa fila, dando dois passos para cada lado. A duração da dança depende do fôlego dos cantadores, da suas possibilidades de desafio; e eles cantam sem parar, eis que cada um faz a segunda voz para o outro, alternadamente, enquanto se "atazanam". Julieta de Andrade - Pesquisa de Folclore em Mato Grosso
[vi] Bairro rural de Piracicaba.

[vii] TEATRO SANTO ESTEVÃO: teatro existente onde hoje é a Praça José Bonifácio, na altura da rua São José em Piracicaba. Foi demolido na década de 50.

[viii] Referência à Bíblia.

[ix] Tive oportunidade de assistir em 2004 diversos cururus em Sítio Grande, área rural de Boituva, onde participaram Horácio Neto, Manezinho Paes, Cido Garoto e Dito Carrara. Os espetáculos iniciavaam-se às 21 h. somente terminando pelas 3 h. da manhã. E o mesmo foi observado nos cururus cantados nas Festas do Divino na região de Tietê e Conchas. Isto para mostrar que ainda existem bons espetáculos na área rural (Nota Autor).

[x] Bairro rural de Piracicaba.

[xi] Fato similar ocorreu com Luizinho Rosa, que agora em 2003 só canta a carreira do sagrado.

[xii] Linho 120: referência a um tipo de linho importado, o melhor que existia na época.

[xiii] GLOSTORA: produto cosmético, brilhantina glostora, década de 1940.

[xiv] O que não tem valor nem importância.